Estudo com mais de 230 mil publicações mostra que confiança em IA depende principalmente da experiência prática, precisão e confiabilidade das respostas.
A inteligência artificial generativa já deixou de ser uma tecnologia restrita a laboratórios ou grandes empresas. Chatbots, assistentes digitais e ferramentas capazes de produzir textos, imagens e códigos passaram a fazer parte da rotina de estudantes, profissionais, empresas e usuários da internet. Mesmo assim, a expansão da IA não eliminou uma questão central: até que ponto as pessoas realmente confiam no que essas ferramentas produzem?
Um estudo publicado por pesquisadores da Drexel University ajuda a responder essa pergunta. A pesquisa analisou mais de 230 mil publicações feitas entre novembro de 2022 e junho de 2025 em 39 comunidades do Reddit e encontrou uma divisão persistente entre confiança e desconfiança em relação à IA generativa. O levantamento mostra que a percepção dos usuários é influenciada principalmente pela experiência direta com a tecnologia, pela qualidade das respostas e pela percepção de confiabilidade.
Por que a confiança na inteligência artificial continua dividida?
O estudo identificou uma diferença relativamente pequena entre manifestações de confiança e desconfiança. Cerca de 31% das publicações analisadas expressavam confiança na IA generativa, enquanto 26% demonstravam desconfiança. Outros 41% não apresentavam uma posição claramente definida, e aproximadamente 1% combinava os dois sentimentos. Isso indica que o debate digital não pode ser resumido a uma simples divisão entre quem acredita ou não na tecnologia.
A pesquisa também analisou grupos diferentes de usuários. Profissionais de tecnologia, desenvolvedores, acadêmicos e líderes empresariais apresentaram maior tendência à confiança. Já manifestações associadas ao público geral, jornalistas e especialistas em ética da IA demonstraram mais desconfiança. Entre usuários de ferramentas de IA, educadores e profissionais do conhecimento, os níveis de confiança e desconfiança apareceram mais equilibrados.
Essa diferença ajuda a explicar por que uma mesma ferramenta pode ser considerada extremamente útil por uma pessoa e pouco confiável por outra. Um programador que utiliza IA diariamente para acelerar tarefas pode avaliar o sistema principalmente pela produtividade obtida. Um usuário que recebe uma informação incorreta em uma situação importante pode desenvolver uma percepção completamente diferente.
O que faz alguém confiar ou desconfiar de uma IA?
Um dos resultados mais importantes da pesquisa é que a experiência pessoal aparece como o principal fator associado tanto à confiança quanto à desconfiança. Na prática, muitas pessoas não estão avaliando a inteligência artificial apenas por suas promessas ou pelo discurso das empresas. Elas observam se a ferramenta funciona, se entrega respostas consistentes e se consegue executar aquilo que promete.
Competência, confiabilidade e familiaridade foram dimensões especialmente importantes para as manifestações de confiança. Do outro lado, respostas incorretas, limitações técnicas e percepção de incompetência estiveram entre os principais motivos para a desconfiança. Questões éticas, como transparência e integridade, também apareceram, mas tiveram menor presença nas discussões analisadas do que aspectos diretamente relacionados ao desempenho.
Esse resultado tem uma consequência importante para empresas que estão adotando inteligência artificial. Não basta disponibilizar um chatbot ou incorporar um modelo generativo a um aplicativo. Se o usuário encontrar respostas inconsistentes, informações imprecisas ou comportamentos inesperados, a experiência negativa pode afetar rapidamente sua disposição para continuar utilizando a tecnologia.
Para consumidores, isso significa que confiança em IA não deve ser confundida com aceitação automática. Uma ferramenta pode ser muito útil para organizar ideias, resumir informações ou automatizar determinadas tarefas sem necessariamente ser adequada para decisões que exigem precisão elevada. A tendência mais segura é utilizar a tecnologia de acordo com sua capacidade e verificar informações importantes antes de agir com base nelas.
Como a relação com a IA pode mudar nos próximos anos?
A pesquisa mostra que a confiança também oscila quando novas tecnologias são lançadas. Os pesquisadores identificaram mudanças nas manifestações de confiança e desconfiança em períodos próximos a lançamentos importantes e grandes anúncios do setor. Isso sugere que a percepção pública não é permanente: novas capacidades podem aumentar a confiança, enquanto erros, limitações ou controvérsias podem produzir o efeito contrário.
Esse comportamento tende a ganhar importância à medida que a inteligência artificial passa de uma ferramenta usada sob comando humano para sistemas capazes de executar tarefas com maior autonomia. Quanto mais responsabilidade for delegada a agentes de IA, maior será a necessidade de avaliar não apenas velocidade e produtividade, mas também confiabilidade, transparência, privacidade e mecanismos de controle.
Para empresas, isso cria uma oportunidade de diferenciação. Sistemas que explicam limitações, permitem supervisão humana e deixam claro quando uma resposta precisa ser verificada podem conquistar maior confiança do que soluções que simplesmente apresentam resultados sem contexto. Para usuários, a principal mudança será aprender a avaliar a qualidade da resposta em vez de assumir que uma ferramenta é correta apenas porque utiliza inteligência artificial.
Os próprios pesquisadores destacam que o estudo tem limitações, já que os dados foram obtidos exclusivamente de publicações do Reddit e, portanto, não representam necessariamente toda a população. Eles defendem a ampliação das pesquisas para outros idiomas, plataformas e grupos sociais.
A tendência, portanto, não aponta para uma escolha definitiva entre confiar ou rejeitar a inteligência artificial. O cenário mais provável é de uma relação cada vez mais baseada em confiança calibrada, na qual usuários reconhecem os benefícios da tecnologia sem ignorar suas limitações. À medida que a IA se torna parte de buscadores, aplicativos, empresas e serviços digitais, saber quando confiar, quando verificar e quando manter supervisão humana será uma habilidade cada vez mais importante. A disputa tecnológica dos próximos anos não deverá envolver apenas quem desenvolve os modelos mais poderosos, mas também quem consegue torná-los mais úteis, previsíveis e confiáveis para as pessoas.
- Drexel University
Drexel University — What Do People Really Think About Generative AI? - Transactions of the Association for Computational Linguistics / MIT Press: artigo científico que apresenta a análise computacional das discussões sobre confiança e desconfiança em IA generativa.
Artigo científico — In Generative AI We (Dis)Trust? - arXiv: versão disponível do estudo, com metodologia, conjunto de dados e resultados da análise de 230.576 publicações entre 2022 e 2025.
Versão do estudo no arXiv
