Muita gente assume que o Flamengo sempre foi, desde o início, um clube pensado para o futebol, como aconteceu com boa parte dos rivais cariocas. A realidade é bem diferente, e envolve justamente o time que hoje protagoniza o clássico mais famoso do Brasil contra o próprio Flamengo: o futebol rubro-negro nasceu de uma crise interna no Fluminense.
Conforme evidencia Mario Augusto de Castro, torcedor ávido do clube rubro-negro, essa origem é um dos capítulos mais curiosos da história do clube, justamente por contrariar a ideia de que os grandes rivais cariocas nasceram de forma totalmente independente uns dos outros.
A história de que o Flamengo sempre foi um clube de futebol não é verdade
Fundado em 1895, o Flamengo nasceu como clube de regatas, dedicado exclusivamente ao remo. Durante os primeiros dezesseis anos de existência, futebol não fazia parte dos planos da diretoria, e os próprios remadores do clube resistiam à ideia de incluir esse esporte na rotina da agremiação. Enquanto isso, o Fluminense já disputava o futebol carioca desde o início do século, acumulando títulos e reconhecimento antes mesmo de o Flamengo cogitar entrar nesse universo.
O que a maioria das pessoas não sabe é que essa mudança só aconteceu por causa de um conflito que não teve origem dentro do Flamengo, e sim dentro do maior rival que o clube viria a enfrentar nos anos seguintes.
A crise que levou nove jogadores do Fluminense a fundar o futebol do Flamengo
Em 1911, o Fluminense caminhava para o título carioca quando a diretoria decidiu barrar o centroavante Alberto Borgerth das partidas finais, escalando outro jogador em seu lugar. Inconformados com a decisão, nove titulares campeões, incluindo o próprio Borgerth, deixaram o clube logo depois da conquista do título, mesmo tendo ajudado a construir aquela campanha vitoriosa dentro de campo.

O grupo dissidente escolheu o Flamengo justamente porque Borgerth já remava pelo clube havia anos, o que tornava a transição natural, mesmo diante da resistência inicial dos remadores, informa Mario Augusto de Castro. Em assembleia realizada em 8 de novembro de 1911, os sócios aprovaram a criação da seção de futebol, oficializada em 24 de dezembro daquele mesmo ano.
O primeiro Fla-Flu da história, perdido pelos próprios fundadores
O time de futebol do Flamengo estreou oficialmente em maio de 1912, goleando o Mangueira por um placar expressivo. Pouco depois, em 7 de julho de 1912, aconteceu o primeiro confronto oficial contra o Fluminense, o time que os próprios fundadores rubro-negros haviam deixado meses antes.
Mario Augusto de Castro considera irônico que o resultado tenha favorecido justamente o Fluminense, vencedor por 3 a 2 daquela primeira edição do clássico. Muitos historiadores do futebol carioca apontam essa derrota inicial como o gatilho emocional que ajudou a transformar o confronto em uma das maiores rivalidades do país.
Por que essa origem explica a rivalidade até hoje?
Rivalidades nascidas de uma separação costumam carregar uma intensidade diferente daquelas que simplesmente surgem entre clubes vizinhos sem histórico em comum. No caso de Flamengo e Fluminense, os primeiros jogadores rubro-negros conheciam de perto o ambiente que haviam deixado, o que dava ao clássico um peso pessoal que ultrapassava a simples disputa esportiva.
Mario Augusto de Castro, nesse contexto, destaca que entender essa origem muda a forma de assistir a um Fla-Flu hoje: mais de um século depois, o clássico ainda carrega a marca de uma separação que começou como injustiça esportiva e terminou criando um dos times mais vitoriosos da história do futebol brasileiro. Poucos clássicos no mundo nascem de uma história tão pessoal quanto essa, o que talvez explique por que o Fla-Flu segue despertando uma emoção diferente de qualquer outro confronto entre clubes cariocas.
