Diante de um ambiente mais seletivo para captação via capital de risco, companhias de tecnologia de médio porte recorrem a fundos estruturados e notas comerciais para financiar crescimento sem diluir participação acionária
O financiamento de empresas de tecnologia no Brasil passou por uma transformação relevante nos últimos anos. Após um período de forte expansão do capital de risco, marcado por aportes volumosos e avaliações elevadas, o mercado de venture capital adotou critérios mais rigorosos de seleção, o que levou companhias de tecnologia de médio porte, muitas delas já com faturamento recorrente e operação madura, a buscar alternativas de financiamento que não envolvessem a diluição de participação acionária. Nesse contexto, estruturas de crédito privado como Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) e Notas Comerciais ganharam espaço como fonte de capital para empresas do setor.
Diferentemente do capital de risco tradicional, que troca aporte financeiro por participação societária, as estruturas de crédito privado permitem que uma empresa de tecnologia capte recursos com base em seus próprios fluxos de receita, sejam eles contratos recorrentes de assinatura, recebíveis de clientes corporativos ou faturas de prestação de serviços. Essa modalidade de financiamento, conhecida em mercados mais maduros como dívida estruturada para empresas de tecnologia, permite à companhia manter o controle acionário enquanto acessa capital para financiar expansão, contratação de equipes e desenvolvimento de produtos.
Receita recorrente como novo tipo de garantia
Empresas de tecnologia com modelo de negócio baseado em assinaturas, comum em softwares como serviço, apresentam um perfil de receita particularmente adequado à estruturação de fundos de recebíveis. A previsibilidade de contratos recorrentes, muitas vezes com renovação automática e baixo índice de cancelamento entre clientes corporativos, oferece a um FIDC lastro relativamente estável, ainda que a análise de risco precise considerar particularidades como concentração de clientes e ciclos de maturação do produto.
Para Lidiane dos Santos, diretora da ID CTVM, o crédito estruturado tem se mostrado uma alternativa complementar relevante ao capital de risco tradicional:
“As empresas de tecnologia que já atingiram um estágio de maturidade operacional, com receita recorrente e previsível, encontram no crédito estruturado uma forma de financiar sua expansão sem abrir mão de participação societária em um momento em que a avaliação de mercado pode não refletir o potencial real do negócio. É um movimento que já é comum em mercados mais desenvolvidos e que ganhou tração no Brasil à medida que o capital de risco se tornou mais seletivo”.
A ID CTVM presta serviços de administração fiduciária, custódia e escrituração para fundos e notas comerciais estruturados para financiar empresas de tecnologia, atuando na validação dos contratos de receita recorrente que lastreiam as operações e no acompanhamento de indicadores específicos do setor, como taxa de cancelamento de clientes e concentração de receita por conta.
Notas Comerciais como via rápida de captação
Para necessidades de capital de giro de menor prazo, empresas de tecnologia também têm recorrido às Notas Comerciais, instrumento que permite captação direta junto a investidores qualificados com processo de emissão significativamente mais ágil do que uma oferta tradicional de debêntures. A escrituração eletrônica desses títulos, que elimina trâmites cartorários e reduz o tempo entre a estruturação da operação e a efetiva captação dos recursos, tem se mostrado especialmente adequada ao ritmo de crescimento acelerado característico de empresas do setor.
Esse tipo de estrutura também oferece flexibilidade para financiar necessidades pontuais, como a aquisição de uma empresa concorrente de menor porte, a expansão para novos mercados geográficos ou o financiamento de capital de giro em períodos de crescimento acelerado da base de clientes, situações em que o tempo de resposta do mercado de capitais pode ser determinante para o sucesso da estratégia.
Governança e auditoria de contratos digitais
O financiamento de empresas de tecnologia por meio de fundos estruturados traz desafios específicos para os administradores fiduciários responsáveis pela governança dessas operações. Diferentemente de recebíveis tradicionais, como duplicatas emitidas a partir de notas fiscais, contratos de assinatura e faturas de serviços digitais muitas vezes existem exclusivamente em plataformas eletrônicas próprias da empresa, o que exige integração tecnológica entre os sistemas do administrador fiduciário e a base de dados do emissor para garantir rastreabilidade e conciliação em tempo real das informações.
Essa integração tecnológica, viabilizada por meio de APIs que conectam a plataforma de gestão de fundos aos sistemas de faturamento das empresas financiadas, permite ao administrador fiduciário monitorar continuamente a qualidade da carteira de recebíveis, identificando eventuais variações relevantes na taxa de cancelamento de clientes ou na concentração de receita que possam impactar o risco da operação.
Tendência deve se consolidar com o amadurecimento do setor
À medida que o ecossistema brasileiro de tecnologia amadurece e um número crescente de empresas atinge estágios avançados de operação, com fluxos de receita consolidados, a tendência é que o crédito estruturado ocupe espaço cada vez maior como alternativa complementar ao capital de risco. Esse movimento reforça a importância de administradores fiduciários capazes de combinar conhecimento técnico do mercado de capitais com capacidade de integração tecnológica, condição essencial para acompanhar o ritmo de crescimento e as particularidades operacionais das empresas de tecnologia que recorrem a esse tipo de financiamento.
Sobre a ID CTVM
A ID CTVM é uma instituição especializada em infraestrutura para o mercado de capitais, com serviços de administração fiduciária, custódia, escrituração, controladoria e distribuição de fundos de investimento. Fundada em 2020, a companhia reúne atualmente mais de 550 fundos e mais de R$50 bilhões sob administração e custódia, com presença relevante em estruturas como FIDCs, FIPs e FIIs. Combinando tecnologia, governança, conhecimento regulatório e eficiência operacional, a ID oferece suporte a gestores, investidores, empresas e demais participantes do mercado, contribuindo para operações mais seguras, eficientes e transparentes.
