Levantamento identificou mais de cem modelos treinados para replicar rostos de celebridades nacionais sem autorização, acendendo novo alerta sobre uso indevido de inteligência artificial
Até onde vai o limite entre criatividade digital e violação de imagem quando o assunto é inteligência artificial? Uma investigação publicada recentemente trouxe à tona um caso que reacende essa discussão no Brasil: o aplicativo SeaArt, plataforma que permite criar imagens por IA, foi flagrado hospedando dezenas de modelos treinados especificamente para reproduzir rostos e corpos de celebridades brasileiras sem qualquer tipo de consentimento.
O que a investigação encontrou
Segundo a apuração, foram identificados pelo menos 144 modelos desse tipo disponíveis na plataforma, todos baseados no Flux.1D, sistema de geração de imagens desenvolvido pela empresa alemã Black Forest Labs. A ferramenta é divulgada por sua própria desenvolvedora como capaz de oferecer controle preciso sobre pose, iluminação e expressão facial, características que, nas mãos erradas, facilitam justamente a criação de conteúdo falso hiper-realista.
Entre os nomes de influenciadoras identificadas nos modelos hospedados pela plataforma estão Nicole Bahls, Belle Belinha e Martina Oliveira, além de atrizes como Dira Paes e Bárbara Paes, mostrando que o problema não se limita a um único perfil de celebridade, mas atinge tanto figuras da televisão quanto criadoras de conteúdo digital com grande audiência nas redes sociais.
Como a plataforma reagiu
Questionada pelos jornalistas responsáveis pela apuração sobre ter conhecimento da existência desses modelos e sobre os mecanismos de moderação disponíveis, a SeaArt enviou uma resposta considerada genérica pela reportagem, afirmando apenas que seus termos de serviço exigem que os usuários cumpram leis e regulamentos e se abstenham de violar direitos de terceiros. A empresa não respondeu a outras perguntas específicas sobre o caso, incluindo questionamentos sobre moderação de conteúdo relacionado a legislações fora da China, país de origem da plataforma.
Um problema que não é novo, mas segue crescendo
O caso brasileiro se soma a uma lista já extensa de episódios semelhantes ao redor do mundo. Levantamentos recentes apontam que incidentes de deepfake envolvendo figuras públicas cresceram de forma acelerada nos últimos anos, com boa parte dos casos reportados envolvendo conteúdo de teor sexual criado sem autorização das pessoas retratadas.
Esse crescimento acompanha o avanço de ferramentas de geração de imagem cada vez mais sofisticadas, capazes de produzir resultados praticamente indistinguíveis de fotos reais, o que dificulta tanto a identificação do conteúdo falso pelo público quanto a resposta rápida por parte das plataformas e das próprias vítimas.
Regulação ainda tenta acompanhar a tecnologia
Casos como esse expõem um descompasso recorrente: enquanto ferramentas de inteligência artificial evoluem rapidamente, a regulação sobre uso de imagem e consentimento segue mais lenta, sobretudo quando a plataforma responsável está sediada fora do país onde as vítimas vivem, dificultando a aplicação de leis locais de proteção à imagem e à privacidade.
No Brasil, episódios anteriores envolvendo deepfakes de outras atrizes e figuras públicas já haviam gerado debate sobre a necessidade de mecanismos mais rígidos de identificação e remoção desse tipo de conteúdo, mas a repetição de casos como o da SeaArt mostra que o problema segue sem solução definitiva.
O impacto para quem tem a imagem usada sem permissão
Para as pessoas afetadas, o dano vai além do desconforto imediato: conteúdos desse tipo podem circular de forma descontrolada pela internet, afetando reputação, carreira e bem-estar emocional, muitas vezes sem que a vítima tenha meios rápidos de exigir a remoção definitiva do material das plataformas onde ele foi gerado ou compartilhado.
Casos como esse tendem a pressionar tanto legisladores quanto as próprias empresas de tecnologia a criar barreiras mais eficazes contra o uso indevido de imagens de terceiros na geração de conteúdo por inteligência artificial. Até que isso avance de forma mais consistente, episódios como o da SeaArt devem continuar servindo de alerta sobre os riscos que acompanham o avanço acelerado dessas ferramentas no dia a dia digital.
https://pulitzercenter.org/pt-br/stories/celebridades-brasileiras-viram-alvo-de-deepfakes-de-ia
https://www.propertycasualty360.com/2026/07/31/who-are-the-most-deepfaked-celebrities-in-2026/
