Pesquisa recente mostra avanço da IA nos negócios brasileiros, enquanto falta de métricas, profissionais qualificados e infraestrutura limita uma adoção mais ampla.
A inteligência artificial deixou de ser apenas uma aposta para o futuro das empresas brasileiras e começou a produzir resultados concretos em diferentes setores. Um levantamento divulgado nesta semana pela AWS mostra que 50% das empresas brasileiras já utilizam IA, enquanto 66% das companhias que adotaram a tecnologia afirmam ter obtido retorno superior ao investimento inicial. O estudo também aponta que 72% das organizações percebem ganhos de produtividade e 54% relatam aumento de receita associado ao uso da tecnologia. Ao mesmo tempo, existe uma contradição importante: somente 33% dos negócios dizem confiar na própria capacidade de medir com precisão o retorno sobre o investimento em IA. (Folha de S.Paulo) O cenário revela uma mudança relevante para a economia digital. O problema de muitas empresas já não é decidir se devem experimentar inteligência artificial, mas descobrir onde ela realmente gera valor e como transformar experimentos em resultados sustentáveis.
Por que medir o retorno da inteligência artificial virou um desafio para as empresas?
A dificuldade começa porque os benefícios da IA nem sempre aparecem imediatamente no balanço financeiro. Uma ferramenta pode reduzir o tempo necessário para produzir um relatório, acelerar o atendimento ao cliente ou ajudar funcionários a encontrar informações, mas transformar esse ganho de produtividade em um número financeiro exige métricas adequadas. Segundo o levantamento da AWS, apenas 28% das empresas brasileiras possuem uma estrutura consistente para medir os resultados dos investimentos em inteligência artificial. (Folha de S.Paulo)
Essa dificuldade também mostra que a transformação digital não acontece simplesmente quando uma empresa contrata uma ferramenta de IA. É necessário identificar processos que podem ser melhorados, estabelecer indicadores antes da implementação e acompanhar o desempenho depois da mudança. Sem essa comparação, uma companhia pode saber que seus funcionários estão usando inteligência artificial, mas não necessariamente saber se o uso está reduzindo custos, aumentando vendas ou melhorando a qualidade do serviço.
O desafio ganha importância porque os investimentos estão crescendo. Segundo levantamento apresentado pela SAP Brasil nesta semana, as empresas brasileiras investem, em média, US$ 20,8 milhões por ano em inteligência artificial, acima dos US$ 14,2 milhões registrados na pesquisa anterior. A mesma análise aponta que, apesar do aumento dos investimentos e do retorno médio, muitos executivos ainda consideram que suas iniciativas não exploram todo o potencial da tecnologia. (Forbes Brasil)
Na prática, isso significa que a próxima etapa da corrida pela IA pode ser menos sobre adquirir ferramentas e mais sobre reorganizar processos. Empresas que conseguirem identificar tarefas adequadas para automação, preparar seus funcionários e acompanhar indicadores terão mais condições de justificar novos investimentos.
Como a inteligência artificial está mudando a produtividade e os negócios?
Os ganhos de produtividade estão entre os principais motivos para a expansão da IA nas empresas brasileiras. Sistemas capazes de analisar documentos, organizar informações, responder perguntas, auxiliar na programação ou automatizar determinadas tarefas podem diminuir o tempo gasto em atividades repetitivas. A pesquisa da AWS indica que 72% das empresas brasileiras que utilizam IA já percebem ganhos de produtividade. (Folha de S.Paulo)
Esse efeito pode ser especialmente importante para pequenas e médias empresas. Antes, determinadas soluções tecnológicas exigiam equipes especializadas e investimentos elevados. A popularização de serviços de inteligência artificial oferecidos pela internet permite que negócios menores tenham acesso a recursos que anteriormente estavam concentrados em grandes companhias. Isso pode aumentar a capacidade de competir em áreas como atendimento, marketing, análise de dados e desenvolvimento de produtos.
A transformação também está criando novos modelos de negócio. Nesta semana, por exemplo, a startup brasileira Premia anunciou a aquisição da Aulapp para ampliar sua atuação em educação corporativa. A empresa utiliza inteligência artificial para identificar lacunas de aprendizagem e personalizar conteúdos, e pretende levar essa tecnologia para a avaliação de habilidades técnicas e comportamentais dentro das empresas. (Folha de S.Paulo)
Outro exemplo aparece no setor de compras corporativas. A brasileira Smarkets utiliza IA para automatizar processos como comparação de preços, cotações e identificação de inconsistências entre fornecedores. Segundo a empresa, sua plataforma já movimentou mais de R$ 10 bilhões e ajudou clientes a economizar mais de R$ 1 bilhão. (UOL Economia) Casos desse tipo mostram que o potencial econômico da inteligência artificial não está apenas em criar novos aplicativos, mas também em tornar operações tradicionais mais eficientes.
O que pode impedir as empresas de aproveitar todo o potencial da IA?
A falta de profissionais qualificados aparece como um dos principais obstáculos. Na pesquisa da AWS, 48% das empresas brasileiras apontaram a escassez de talentos como uma barreira para a adoção da inteligência artificial. Outros 46% citaram limitações relacionadas a tecnologias de próxima geração. (Folha de S.Paulo) Isso significa que investir em software sem preparar as equipes pode limitar o resultado esperado.
A segurança é outro ponto que ganha importância conforme a IA passa a lidar com informações corporativas. Um estudo apresentado nesta semana pela NTT Data indica que os investimentos globais em governança, observabilidade e cibersegurança relacionados à inteligência artificial devem triplicar até 2029. A análise também aponta mudanças nos ataques digitais e destaca a necessidade de rastrear dados e compreender como os modelos chegam a determinados resultados. (Folha de S.Paulo)
Para as empresas, isso significa que a adoção responsável da tecnologia precisa envolver mais do que o departamento de tecnologia da informação. Recursos humanos, jurídico, segurança, gestão e áreas operacionais também passam a participar das decisões sobre quais ferramentas podem ser utilizadas, quais dados podem ser compartilhados e quais processos podem ser automatizados.
A própria expansão global da IA reforça a necessidade de cautela. O Banco de Compensações Internacionais estima que as cinco maiores empresas globais de tecnologia devem investir mais de US$ 1 trilhão em inteligência artificial entre 2025 e 2026. O órgão, porém, alerta que o forte crescimento dos investimentos também cria riscos financeiros caso os retornos esperados não se concretizem. (Reuters)
Para o mercado brasileiro, a tendência aponta para uma fase mais madura da transformação digital. A inteligência artificial continuará avançando, mas empresas deverão cobrar resultados mais claros antes de ampliar seus gastos. Isso favorece soluções capazes de resolver problemas específicos, em vez de ferramentas adotadas apenas porque estão em evidência. Nos próximos meses, produtividade, segurança, qualificação profissional e capacidade de medir retorno devem ganhar espaço nas decisões corporativas. O diferencial não será simplesmente ter acesso à IA, mas saber onde aplicá-la, acompanhar seus efeitos e integrá-la ao trabalho humano. Para startups e empresas tradicionais, essa mudança pode abrir novas oportunidades de negócio e aumentar a eficiência. Ao mesmo tempo, organizações que não desenvolverem competências digitais poderão encontrar dificuldades para acompanhar concorrentes que já estão transformando inteligência artificial em vantagem econômica.
Fontes:
- Bank for International Settlements (BIS) — IA, crescimento e estabilidade financeira
- BIS — Relatório sobre IA e economia global
- BIS — Annual Economic Report 2026: Progress and peril
- NTT DATA Brasil — Relatório Global de IA 2026
- NTT DATA Brasil — Tendências de ameaças cibernéticas em 2026
- SAP Brasil — SAP NOW AI Tour Brazil 2026
- NTT DATA Brasil e Palo Alto Networks — Aliança para transformação segura com IA
