A inteligência artificial já entrou na rotina de milhões de negócios no Brasil, mas transformar adoção em produtividade e novos negócios ainda é o grande desafio.
A inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante para se tornar parte da economia brasileira. Um novo levantamento divulgado em 3 de setembro mostra que 50% das empresas do país já utilizam algum tipo de IA, o equivalente a cerca de 12 milhões de negócios. O dado foi apresentado durante o AWS Summit São Paulo e representa uma aceleração importante em relação aos 40% registrados na pesquisa anterior.
O crescimento, porém, esconde uma diferença importante entre experimentar ferramentas de IA e incorporá-las de forma estratégica. A maioria das empresas ainda utiliza a tecnologia para tarefas pontuais e ganhos de eficiência, enquanto uma parcela menor consegue empregá-la para modificar produtos, serviços e modelos de negócio. Para empresas e profissionais, essa diferença pode definir quem apenas acompanha a transformação digital e quem consegue obter vantagens competitivas dela.
Por que tantas empresas brasileiras estão adotando inteligência artificial?
O avanço da IA ocorre porque as ferramentas ficaram mais acessíveis e passaram a atender necessidades concretas das empresas. Sistemas capazes de produzir textos, analisar informações, automatizar tarefas, apoiar atendimento ao cliente e auxiliar equipes em decisões passaram a fazer parte da rotina corporativa. O resultado é uma mudança na forma como negócios de diferentes tamanhos enxergam a tecnologia.
Segundo o estudo “Desbloqueando o Potencial da IA no Brasil 2026”, realizado pela Strand Partners para a Amazon Web Services, 76% das empresas consideram a adoção da inteligência artificial uma prioridade estratégica alta ou máxima. Entre as organizações que já utilizam IA, 81% afirmam que a tecnologia possui papel importante ou crítico em suas estratégias.
O dado ajuda a explicar por que a inteligência artificial ganhou espaço também na agenda econômica. Para uma pequena empresa, por exemplo, automatizar tarefas administrativas pode liberar tempo da equipe. Para uma indústria, sistemas de análise podem ajudar a identificar padrões e reduzir desperdícios. Em uma empresa de comércio eletrônico, a IA pode apoiar atendimento, recomendação de produtos e análise do comportamento dos consumidores.
Existe ainda uma mudança na competição entre empresas. Quando determinadas ferramentas se tornam acessíveis para concorrentes de diferentes portes, a vantagem deixa de estar simplesmente em possuir acesso à tecnologia. O diferencial passa a ser saber onde aplicá-la, integrar dados de qualidade, preparar funcionários e medir se o investimento realmente produz resultado.
O que impede as empresas de transformar IA em crescimento?
O principal desafio da próxima etapa não parece ser simplesmente conseguir acesso à inteligência artificial. O estudo mostra que 72% das organizações concordam que as ferramentas já estão disponíveis. O problema está em transformar essa disponibilidade em aplicações mais sofisticadas e capazes de gerar valor para o negócio.
Entre as empresas brasileiras que utilizam IA, 58% ainda estão no estágio básico, concentrado em ganhos incrementais de eficiência. Outros 27% estão em um nível intermediário, no qual a tecnologia começa a ser integrada a produtos e serviços. Apenas 15% chegaram ao estágio avançado, associado à transformação ou criação de novos modelos de negócio.
Essa diferença é importante para entender o futuro da economia digital. Usar um chatbot para responder perguntas internas é diferente de desenvolver um sistema capaz de analisar dados e apoiar decisões estratégicas. Da mesma forma, utilizar uma ferramenta para resumir documentos é diferente de integrar inteligência artificial a toda uma operação.
Outro obstáculo é a falta de profissionais preparados. A pesquisa aponta que 48% das empresas consideram a escassez de habilidades digitais e de IA uma das principais barreiras para avançar. Além disso, somente 21% das organizações se consideram preparadas para tecnologias de próxima geração, como sistemas de IA agêntica, capazes de executar determinadas tarefas com maior autonomia.
A capacidade de medir o retorno também preocupa. Apenas cerca de um terço das empresas demonstra confiança para avaliar o ROI da inteligência artificial. Isso significa que muitas organizações já investem na tecnologia, mas ainda precisam desenvolver indicadores capazes de mostrar quanto tempo, dinheiro ou produtividade foi efetivamente ganho.
Como essa mudança pode afetar empresas, trabalhadores e consumidores?
Para as empresas, a principal oportunidade está em passar da simples automação para a criação de novos produtos, serviços e formas de relacionamento com o cliente. Startups aparecem especialmente bem posicionadas nesse processo. O levantamento indica que elas estão na vanguarda da inovação em IA, apresentando maior nível de adoção avançada e maior capacidade de lançar produtos orientados pela tecnologia.
Isso pode abrir espaço para novos negócios em áreas como serviços financeiros, varejo digital, logística, saúde, indústria, educação e atendimento. Uma startup que nasce com IA integrada à sua operação pode estruturar processos de maneira diferente de uma empresa tradicional que precisa adaptar sistemas antigos.
Para trabalhadores, a transformação tende a aumentar a importância de habilidades complementares à tecnologia. Saber utilizar ferramentas de IA, verificar resultados, interpretar informações e tomar decisões continuará sendo relevante mesmo quando determinadas tarefas forem automatizadas. A mudança, portanto, não significa apenas aprender a operar uma ferramenta, mas compreender como incorporá-la ao trabalho sem perder controle sobre decisões importantes.
Os consumidores também devem perceber efeitos progressivos. Empresas mais eficientes podem oferecer respostas mais rápidas, serviços personalizados e experiências digitais mais convenientes. Ao mesmo tempo, o crescimento da IA aumenta a importância de questões como privacidade, segurança de dados, transparência e responsabilidade sobre decisões automatizadas.
O próximo estágio da economia digital brasileira deverá ser marcado justamente por essa busca por maturidade. A adoção já alcançou metade das empresas, mas o grande desafio será fazer com que uma parcela maior delas avance para aplicações capazes de gerar inovação real. A expansão de agentes de IA, sistemas integrados a dados corporativos e ferramentas especializadas pode acelerar essa transformação, desde que venha acompanhada de governança, capacitação e métricas claras.
Nesse cenário, a vantagem competitiva tende a migrar do simples acesso à inteligência artificial para a capacidade de utilizá-la com estratégia. Empresas que conseguirem combinar tecnologia, profissionais preparados e objetivos mensuráveis poderão encontrar novas fontes de produtividade e receita. Para o Brasil, o movimento representa não apenas uma mudança tecnológica, mas uma oportunidade de aumentar a maturidade da economia digital e criar negócios mais competitivos nos próximos anos.
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