Da audiência à confiança: como criadores, algoritmos e inteligência artificial estão transformando a influência nas redes sociais.
A influência dos famosos mudou de endereço. Se antes a televisão, o cinema e as revistas concentravam grande parte da atenção do público, hoje uma parcela importante desse poder está nas redes sociais, onde criadores de conteúdo conseguem falar diretamente com milhões de pessoas. Um movimento recente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ajuda a dimensionar essa transformação: em 25 de agosto, 15 influenciadores foram recebidos pela Corte para conhecer o funcionamento da urna eletrônica e discutir segurança, fiscalização e desinformação. Juntos, eles alcançam cerca de 45 milhões de seguidores. (Justiça Eleitoral)
O episódio é mais importante do que parece para quem acompanha tecnologia. Ele mostra que um perfil em uma rede social deixou de ser apenas um espaço de entretenimento e passou a funcionar como um canal de informação, recomendação e formação de opinião. Ao mesmo tempo, a inteligência artificial está mudando a maneira como esses conteúdos são produzidos e até criando personalidades digitais que não existem no mundo físico. Para o público, isso traz uma nova pergunta: como identificar quem realmente está por trás de uma influência online?
Por que os influenciadores se tornaram tão importantes para a internet?
A principal mudança está na relação entre audiência e criador. Um famoso tradicional depende de veículos de comunicação para alcançar o público, enquanto um influenciador consegue publicar um vídeo, uma transmissão ou uma mensagem e chegar diretamente aos seguidores. O algoritmo das plataformas ajuda a ampliar esse alcance, principalmente quando determinado conteúdo provoca comentários, compartilhamentos, curtidas ou outras formas de interação.
O caso do TSE mostra o tamanho dessa transformação. A Corte reuniu 15 criadores que, somados, alcançam aproximadamente 45 milhões de pessoas, em uma iniciativa voltada a explicar temas relacionados à segurança e à auditabilidade das urnas e combater a desinformação. A estratégia também envolveu YouTube e TikTok. (Justiça Eleitoral) Na prática, instituições que antes dependiam principalmente de sites oficiais, televisão e imprensa passaram a considerar os criadores como intermediários importantes para conversar com diferentes comunidades digitais.
Esse modelo também interessa às empresas. Uma marca pode ter milhões de seguidores e, ainda assim, encontrar dificuldade para gerar confiança. Um criador especializado em determinado assunto, por outro lado, pode possuir uma audiência menor, mas altamente interessada naquele tema. É por isso que a economia dos influenciadores está cada vez mais relacionada a dados, segmentação e comportamento digital, e não apenas ao número bruto de seguidores.
A tecnologia também permite medir praticamente cada etapa dessa relação. Plataformas oferecem informações sobre visualizações, retenção, comentários, compartilhamentos e perfil da audiência. Para empresas e criadores, esses dados ajudam a entender quais conteúdos funcionam melhor. Para o usuário, entretanto, existe um ponto de atenção: popularidade não significa necessariamente credibilidade.
Como a inteligência artificial está mudando o trabalho dos famosos e criadores?
A inteligência artificial acrescentou uma nova camada a esse cenário. Ferramentas generativas já podem ajudar na criação de roteiros, edição, tradução, geração de imagens, planejamento de publicações e adaptação de conteúdos para diferentes plataformas. Isso reduz o tempo necessário para determinadas tarefas e permite que um criador produza mais materiais para sua audiência.
Ao mesmo tempo, a IA está criando uma situação ainda mais complexa: a existência de influenciadores virtuais. Uma reportagem recente da Folha de S.Paulo destacou o crescimento de perfis criados artificialmente, incluindo personagens que parecem pessoas reais e acumulam centenas de milhares de seguidores. O fenômeno levanta questões sobre transparência, publicidade e a capacidade do público de distinguir uma personalidade humana de uma identidade sintética. (Folha de S.Paulo)
Esse processo muda também o conceito de fama. Uma personalidade digital não precisa necessariamente ter uma carreira anterior na televisão, no cinema ou na música. Ela pode nascer diretamente de uma combinação entre imagem gerada por IA, estratégia de conteúdo, algoritmos de recomendação e investimento publicitário. Em tese, uma empresa pode criar um personagem com características específicas e utilizá-lo continuamente em campanhas, sem depender da agenda de uma celebridade humana.
Para o público, a consequência é direta. Quanto mais realistas ficam imagens, vozes e vídeos produzidos por inteligência artificial, mais importante se torna verificar a origem de conteúdos que parecem espontâneos. A UNESCO reconhece justamente o crescimento da importância dos criadores digitais no ecossistema de informação e defende o fortalecimento da educação midiática, da integridade da informação e do uso responsável da IA por influenciadores. (UNESCO)
O que muda para quem acompanha famosos nas redes sociais?
A primeira mudança é que seguir uma personalidade na internet exige cada vez mais atenção à origem do conteúdo. Um vídeo pode ter sido gravado por uma pessoa, editado intensamente por ferramentas de IA ou até produzido artificialmente. A mesma lógica vale para imagens, áudios e publicações que circulam rapidamente entre diferentes plataformas.
Isso não significa que toda utilização de IA seja problemática. Para criadores, a tecnologia pode representar uma ferramenta legítima de produtividade. Um influenciador pode utilizá-la para organizar ideias, pesquisar informações, traduzir um roteiro ou acelerar etapas técnicas de edição. O problema aparece quando a tecnologia é usada para esconder informações relevantes do público ou fabricar uma aparência de autenticidade que não corresponde à realidade.
O crescimento da influência digital também aumenta a responsabilidade de quem produz conteúdo. Quando uma personalidade possui milhões de seguidores, uma informação incorreta pode se espalhar muito mais rapidamente do que em um perfil pequeno. O próprio TSE vem tratando os criadores como parte importante da estratégia de comunicação sobre as eleições, justamente porque eles conseguem alcançar públicos que podem não acompanhar diretamente os canais institucionais. (Justiça Eleitoral)
Para empresas, o cenário cria outra oportunidade: trabalhar com criadores que tenham autoridade real em comunidades específicas. Para os famosos, significa que reputação digital passa a ser um ativo cada vez mais importante. Para o usuário comum, significa aprender a diferenciar opinião, publicidade, informação e conteúdo produzido artificialmente.
A tendência é que essa distinção fique ainda mais difícil nos próximos anos. Com ferramentas de IA cada vez mais acessíveis, a internet deverá ter uma combinação crescente de celebridades tradicionais, influenciadores humanos, personagens virtuais e conteúdos produzidos em parceria entre pessoas e sistemas de inteligência artificial. O valor de um perfil, portanto, poderá depender menos apenas de quantos seguidores possui e mais da confiança que consegue construir.
Nesse cenário, o principal diferencial dos criadores tende a ser a autenticidade verificável. A tecnologia pode aumentar velocidade, alcance e capacidade de produção, mas não elimina a necessidade de credibilidade. Para quem acompanha famosos, marcas ou influenciadores, entender como o conteúdo foi produzido será tão importante quanto decidir se vale a pena assisti-lo ou compartilhá-lo. E para quem trabalha com comunicação digital, a combinação entre criatividade humana, dados e IA deverá definir uma nova etapa da economia dos criadores.
Fontes:
- Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — TSE reúne influenciadores digitais em estratégia contra desinformação nas redes (Justiça Eleitoral)
- TSE — programação de agosto de 2026 (Justiça Eleitoral)
- Folha de S.Paulo — Os influenciadores digitais que não existem (Folha de S.Paulo)
- Folha de S.Paulo — Por que influenciadores criados com IA viram nova aposta nas redes Folha de S.Paulo)
- UNESCO — Eleições em tempos digitais: um guia para profissionais eleitorais . (unesdoc.unesco.org)
