Levantamento da ABES em parceria com a IDC mostra que investimentos em inteligência artificial devem ultrapassar US$ 3,4 bilhões em 2026, superando cibersegurança pela primeira vez
A inteligência artificial deixou de ser um projeto experimental dentro das empresas brasileiras para se tornar parte estrutural da operação de negócios. Um levantamento inédito conduzido pela Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES) em parceria com a consultoria IDC, apresentado em agosto de 2026, revela que 95% das empresas brasileiras com mais de 100 funcionários já utilizam ou planejam adotar inteligência artificial em suas operações. O dado confirma uma mudança de comportamento que já vinha sendo observada ao longo do ano: a tecnologia deixou de ser vista como diferencial competitivo e passou a ser tratada como infraestrutura crítica.
IA ultrapassa segurança e nuvem pela primeira vez
Pela primeira vez, a inteligência artificial ultrapassou cibersegurança e computação em nuvem como principal tema na agenda estratégica das empresas nacionais, um movimento que reflete a mudança de postura dos líderes de TI, que deixaram de tratar a IA como projeto piloto e passaram a encará-la como alicerce competitivo. O reflexo financeiro dessa virada já é visível nos orçamentos corporativos. Segundo o estudo, 86% dos líderes empresariais ouvidos afirmaram que planejam ampliar os investimentos em tecnologia da informação em 2026 na comparação com o ano anterior, e as projeções da IDC citadas na pesquisa indicam que os gastos brasileiros em inteligência artificial devem superar US$ 3,4 bilhões ainda neste ano, com crescimento superior a 30% ao ano. itshow
Agentes autônomos ganham espaço nas operações
Um dos pontos mais expressivos do levantamento diz respeito aos chamados agentes inteligentes, sistemas capazes de executar tarefas de forma autônoma, sem necessidade de intervenção humana constante. Segundo a pesquisa, 40% das empresas brasileiras já investem nesse tipo de tecnologia, enquanto outras 33% pretendem iniciar projetos do gênero nos próximos 12 meses. Somados, esses números indicam que, até meados de 2027, cerca de 73% do mercado corporativo brasileiro estará, em algum grau, operando com agentes de inteligência artificial, o que posiciona o país entre os mercados mais acelerados da América Latina na adoção dessa tecnologia.
Governança de dados aparece como o principal gargalo
Apesar do ritmo acelerado de adoção, o estudo aponta um problema estrutural que ameaça travar essa expansão. A governança de dados desponta como o principal obstáculo para escalar a inteligência artificial com segurança e eficiência dentro das organizações, já que, sem dados bem organizados, catalogados e protegidos, os modelos perdem precisão e o risco operacional e regulatório aumenta. O desafio se torna ainda mais crítico para as equipes de cibersegurança, que enfrentam uma superfície de ataque cada vez maior à medida que a IA passa a processar volumes maiores de informações sensíveis.
O setor financeiro, que responde por 25,4% de todo o mercado de software e serviços no Brasil, é apontado como um dos mais expostos a esse dilema, já que precisa avançar em inteligência artificial sem abrir mão de conformidade regulatória e controle sobre dados extremamente sensíveis.
Mercado de TI cresce, mas falta mão de obra qualificada
O cenário macroeconômico do setor de tecnologia reforça o otimismo dos investimentos. O mercado brasileiro de TI movimentou US$ 67,8 bilhões em 2025, com crescimento de 18,5%, bem acima da média global de 14,1%, e o país encerrou o ano com 41.613 empresas atuando em software e serviços, consolidando a liderança no mercado latino-americano de tecnologia da informação.
Esse crescimento acelerado, no entanto, esbarra em uma contradição preocupante. O país forma cerca de 53 mil profissionais de TI por ano, enquanto a demanda do mercado chega a 159 mil, um déficit anual de 106 mil especialistas que representa um dos maiores freios estruturais à expansão da inteligência artificial nas empresas. Como consequência direta dessa escassez, 65% das empresas de tecnologia relatam dificuldades para encontrar profissionais com competências especializadas, um problema que atinge de forma ainda mais aguda as áreas de IA, segurança da informação e engenharia de dados.
Governo aposta em plano bilionário para reduzir dependência externa
Diante desse cenário, o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial prevê investimentos de R$ 1,76 bilhão até 2028, com foco em formação de talentos, infraestrutura e soberania tecnológica. A iniciativa busca enfrentar um risco identificado pelos próprios pesquisadores: o Brasil lidera o consumo de inteligência artificial na América Latina, mas ainda depende majoritariamente de plataformas e infraestrutura desenvolvidas fora do país.
A expansão acelerada do setor também pressiona a infraestrutura energética nacional, já que o crescimento dos data centers necessários para sustentar o processamento de IA em escala exige investimentos em energia e conectividade que, em diversas regiões do país, ainda estão em fase de planejamento. Para empresas que buscam se posicionar diante dessa transformação, o próximo passo tende a ser menos sobre adotar a tecnologia e mais sobre organizar os dados que a alimentam, condição que especialistas do setor já apontam como decisiva para os resultados dos próximos anos.
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