Levantamento do Reglab mostra que produtividade do trabalhador e eficiência das empresas puxam o impacto da tecnologia sobre o PIB nacional
Quanto a inteligência artificial pode realmente valer para a economia brasileira nos próximos anos? Um estudo do Reglab, centro de pesquisa especializado em mídia e tecnologia, tentou responder a essa pergunta com números concretos, e o resultado chama atenção: a IA pode acrescentar até R$ 986,7 bilhões ao Produto Interno Bruto do país entre 2027 e 2030.
O valor equivale a cerca de 7,6% do PIB estimado para 2026, uma fatia considerável para um único fator tecnológico. No cenário central analisado pelos pesquisadores, o efeito acumulado da IA no período correspondeu a 2,77% do PIB, com uma expansão média de 0,69 ponto percentual ao ano associada diretamente ao uso dessas ferramentas pelas empresas brasileiras.
Para chegar a esses números, o Reglab cruzou dados de adoção tecnológica com projeções de crescimento setorial, construindo diferentes cenários de acordo com a velocidade em que empresas e trabalhadores incorporam a IA ao dia a dia produtivo.
Produtividade puxa a maior parte do ganho
Segundo o levantamento, os ganhos econômicos devem se concentrar em dois canais principais: o aumento da produtividade da mão de obra e a maior eficiência no uso de recursos pelas empresas. A produtividade do trabalhador, isoladamente, responderia por cerca de 65% de todo o impacto econômico estimado.
Isso significa que o efeito da IA sobre a economia não estaria concentrado apenas em grandes investimentos de infraestrutura, mas principalmente na forma como o trabalho é executado no dia a dia, com tarefas automatizadas, processos mais rápidos e menos tempo gasto em atividades repetitivas.
Um movimento que já aparece em outras economias
O estudo brasileiro dialoga com uma tendência observada em escala global. O Banco Mundial já havia apontado que a inteligência artificial pode representar uma oportunidade especialmente relevante para economias em desenvolvimento, permitindo que esses países avancem em áreas como saúde, educação e extensão agrícola sem depender necessariamente de modelos caros ou de grandes centros de dados.
A lógica é parecida com a que aparece no estudo do Reglab: não é preciso ter a tecnologia mais avançada do mundo para colher resultados econômicos relevantes, mas sim adaptar ferramentas já disponíveis à realidade local.
O que pode travar essa expansão
Apesar do potencial elevado, os próprios pesquisadores fazem uma ressalva importante: o resultado projetado depende do ritmo de adoção da tecnologia pelas empresas brasileiras. Se a curva de implementação for mais lenta do que o esperado, o impacto sobre o PIB tende a ficar abaixo do cenário central estimado.
Outro fator determinante é a capacidade de qualificação da força de trabalho. De nada adianta ter ferramentas de IA disponíveis se boa parte dos profissionais não sabe utilizá-las de forma produtiva, e esse gargalo de formação já é apontado por diferentes pesquisas como um dos principais entraves para a adoção em larga escala no país.
Outro levantamento recente, conduzido pela Amcham, reforça esse cenário: embora a inteligência artificial já seja tratada como prioridade estratégica pela maioria das empresas brasileiras, os investimentos efetivos e o grau de maturidade na aplicação da tecnologia ainda são considerados baixos. Ou seja, existe intenção declarada, mas a execução prática segue em ritmo mais lento do que o discurso corporativo sugere.
Esse descompasso entre plano e prática ajuda a explicar por que estudos como o do Reglab trabalham com cenários e não com certezas: o potencial econômico existe, mas sua realização depende de decisões concretas de investimento nos próximos anos.
O que esperar daqui para frente
Para o consumidor final e para o trabalhador comum, esse tipo de projeção tende a se traduzir, na prática, em mudanças graduais: processos mais automatizados em setores como serviços financeiros, varejo e atendimento, e uma pressão crescente por qualificação profissional voltada ao uso dessas ferramentas.
O período entre 2027 e 2030, citado pelo estudo, deve funcionar como uma espécie de teste real para o país: mostrar se o Brasil consegue converter o discurso sobre inteligência artificial em ganhos efetivos de produtividade, ou se o intervalo entre potencial e resultado prático continuará sendo maior do que o desejado pelas empresas e pelo governo.
https://terrabrasilnoticias.com/2026/08/ia-pode-injetar-quase-r-1-trilhao-na-economia-brasileira-ate-2030/
https://www.worldbank.org/pt/news/press-release/2026/08/04/ai-offers-lifeline-to-developing-economies-in-an-era-of-weak-growth
https://www.amcham.com.br/noticias/inteligencia-artificial-sera-prioridade-das-empresas-em-2026
