A Secretaria Nacional de Direitos Digitais (Sedigi), vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, divulgou em 22 de setembro de 2026 uma nota técnica sobre os riscos dos chamados “companheiros de IA” para crianças e adolescentes. A página oficial do governo foi atualizada no dia seguinte, 23 de setembro, em Brasília.
O levantamento trata de aplicativos desenvolvidos para simular relações de amizade, companheirismo ou vínculo afetivo com os usuários. Diferentemente de um chatbot voltado apenas à consulta de informações, essas ferramentas buscam manter interações contínuas por meio de recursos como memória, personalização e respostas com linguagem emocional.
Segundo o diagnóstico apresentado pela Secretaria Nacional de Direitos Digitais, a combinação desses mecanismos pode aumentar a intensidade e a duração das conversas. O documento também chama atenção para os efeitos que esse tipo de interação pode produzir quando o usuário ainda está em fase de desenvolvimento.
Quais riscos foram identificados
Entre os principais pontos listados estão o apego excessivo, o uso compulsivo e a possível substituição de vínculos humanos por interações com sistemas automatizados. A análise também relaciona o uso prolongado a consequências como privação de sono, queda no desempenho escolar, abandono de atividades e afastamento de relações presenciais.
Outro risco apontado é a exposição a conteúdo sexualizado ou inadequado para a faixa etária. Como os aplicativos simulam conversas pessoais e podem adaptar suas respostas ao histórico de cada usuário, a Sedigi considera necessário observar de que maneira esses serviços lidam com públicos infantojuvenis e com situações de maior vulnerabilidade.
A coleta de dados íntimos aparece como uma preocupação adicional. Conversas prolongadas sobre sentimentos, relacionamentos e experiências pessoais podem fornecer informações sensíveis às plataformas. A nota também menciona o uso de perfis emocionais em estratégias de publicidade, monetização e estímulo à contratação de recursos pagos.
Treze plataformas foram avaliadas
De acordo com o governo, uma consultoria coordenada por um professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco avaliou 13 plataformas disponíveis no mercado brasileiro. Entre os serviços analisados estão Character.AI, Replika, Nomi, Kindroid, Chai, Talkie e Crushon.ai, além de outras ferramentas da mesma categoria.
A avaliação tem caráter preliminar e deverá servir como subsídio para um futuro guia sobre inteligência artificial na infância e na adolescência. Portanto, o material não representa, por si só, uma conclusão definitiva sobre a regularidade de cada serviço ou uma decisão administrativa contra as empresas responsáveis pelas plataformas.
A Sedigi encaminhou o conteúdo à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) e à Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon). Os órgãos poderão examinar eventuais questões relacionadas à proteção de dados, às relações de consumo e às práticas adotadas pelos serviços. A secretaria ressalta que a identificação de indícios de não conformidade não antecipa o resultado de investigações formais.
Verificação de idade é um dos pontos de atenção
A nota técnica também destaca a fragilidade dos mecanismos usados para impedir o acesso de menores. Conforme o diagnóstico, a maioria das plataformas avaliadas depende apenas da autodeclaração do usuário para verificar sua idade. Esse procedimento é considerado facilmente contornável e pode não ser suficiente para restringir o acesso de crianças e adolescentes a recursos inadequados.
O problema ganha relevância porque os companheiros de IA são projetados para criar uma experiência personalizada. A memória das conversas, a adaptação das respostas e a simulação de proximidade emocional podem tornar o uso mais envolvente do que em ferramentas conversacionais convencionais. Para a Sedigi, esses elementos exigem atenção especial quando associados a modelos de negócio baseados em engajamento e pagamentos dentro do aplicativo.
Próximos passos para a regulação
O levantamento coloca os companheiros de IA no centro do debate brasileiro sobre segurança digital, privacidade e proteção de crianças e adolescentes. A categoria reúne serviços com funções de interação social e suporte emocional, o que amplia as discussões sobre transparência, responsabilidade das plataformas e limites para a coleta e o uso de informações pessoais.
Por enquanto, a publicação da Sedigi funciona como um diagnóstico inicial e como base para orientações futuras. A análise dos órgãos competentes poderá indicar se há necessidade de medidas regulatórias, ações de defesa do consumidor ou exigências adicionais para a proteção de menores no uso dessas aplicações.
