Entre os principais desafios de qualquer política preventiva está garantir que cada exame cumpra sua função, e o Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues situa a qualidade da mamografia como variável tão decisiva quanto o número de exames realizados. Uma imagem com posicionamento inadequado, compressão insuficiente ou exposição incorreta pode esconder uma lesão que estava ao alcance da detecção. Nesses casos, a mulher sai do serviço com a sensação de estar protegida, enquanto o sistema registra mais um procedimento concluído. A distância entre produção e efetividade costuma ser silenciosa e só aparece anos depois.
Onde a qualidade se perde ao longo do processo?
O percurso de uma mamografia envolve uma cadeia de etapas interdependentes. Começa na calibração do aparelho e no controle da dose de radiação, passa pelo posicionamento feito pelo técnico, pela compressão adequada da mama e pelo processamento da imagem, e termina na leitura do radiologista e na emissão do laudo. Uma falha em qualquer ponto compromete o resultado final. O posicionamento, por exemplo, precisa incluir o músculo peitoral e a região próxima à axila, onde se concentra parte significativa dos tumores, sob pena de deixar áreas inteiras fora do campo examinado.
No diagnóstico do Dr. Vinicius Rodrigues, a etapa técnica de aquisição recebe menos atenção do que merece nas discussões sobre rastreamento. Grande parte do debate público se concentra no acesso ao exame e na quantidade de aparelhos disponíveis, enquanto a formação continuada dos técnicos em radiologia e a supervisão das imagens produzidas ficam em segundo plano. Em serviços com alta rotatividade de profissionais ou sobrecarga de agenda, o risco de imagens tecnicamente insuficientes cresce, e nem sempre há rotina para identificar e corrigir o problema antes que ele afete a leitura.
Programas de certificação e controle no país
O Brasil conta com instrumentos formais para enfrentar o problema. Em 2012, o Ministério da Saúde instituiu o Programa Nacional de Qualidade em Mamografia, que prevê a avaliação periódica dos serviços, com análise de imagens clínicas, testes de desempenho dos equipamentos e verificação da qualidade dos laudos. Paralelamente, o Colégio Brasileiro de Radiologia mantém um programa de certificação voluntária, que atesta o cumprimento de padrões técnicos por clínicas públicas e privadas. A vigilância sanitária completa o quadro com exigências de proteção radiológica e manutenção dos aparelhos.
Vinicius Rodrigues contextualiza o alcance desses programas a partir da diferença entre existir uma norma e haver capacidade de fiscalizá-la. Em muitos estados, a adesão depende de equipes técnicas reduzidas e de agendas de inspeção espaçadas, o que limita o acompanhamento contínuo dos serviços credenciados. A certificação voluntária, por sua vez, tende a se concentrar em clínicas de maior porte. O resultado é um mosaico em que convivem serviços de excelência e unidades sem qualquer avaliação recente, muitas vezes atendendo à mesma população.
Indicadores que revelam o desempenho de um programa
Avaliar a qualidade do rastreamento exige olhar para métricas que vão além da cobertura. A taxa de reconvocação mostra quantas mulheres precisaram retornar para exames adicionais, enquanto o valor preditivo positivo indica quantas dessas reconvocações de fato resultaram em diagnóstico de câncer. A taxa de detecção por mil exames e a proporção de tumores encontrados em estágio inicial completam o retrato. Valores muito distantes das referências internacionais, para mais ou para menos, sinalizam problemas na aquisição das imagens, na interpretação ou no fluxo de investigação.
O acompanhamento dos cânceres de intervalo funciona como um dos termômetros mais sensíveis do desempenho. Quando um tumor é diagnosticado pouco tempo depois de uma mamografia considerada normal, a revisão do exame anterior permite entender se houve limitação técnica, erro de leitura ou crescimento acelerado da lesão. A dupla leitura, adotada em países com programas organizados, reduz parte dessas falhas. Monitorar sistematicamente tais casos é uma prática que, conforme analisado por Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, permite ao gestor corrigir rotas antes que a falha apareça nas estatísticas de mortalidade.
