O Brasil está entre os países que apresentam um uso de inteligência artificial superior ao esperado para seu nível de renda, segundo novos dados do Google. A conclusão faz parte do AI & Economy ATLAS, estudo que acompanha como pessoas de diferentes regiões utilizam ferramentas de IA no trabalho e em atividades do cotidiano.
Divulgado em 15 de setembro de 2026, o levantamento aponta que a adoção da tecnologia costuma acompanhar o Produto Interno Bruto per capita dos países. Brasil e Emirados Árabes Unidos, porém, aparecem como exceções parciais nessa relação, com taxas de uso superiores às estimadas para suas respectivas condições econômicas.
O indicador não significa que o país tenha ultrapassado economias mais ricas em todos os aspectos relacionados à inteligência artificial. Ele sugere, entretanto, que a utilização de ferramentas baseadas na tecnologia é mais intensa do que seria previsto apenas pela renda média. A análise oferece uma visão sobre padrões de uso, e não um retrato completo de todo o mercado brasileiro de IA.
IA também chega a atividades manuais
Um dos dados de maior destaque está relacionado ao uso profissional da inteligência artificial em tarefas manuais. De acordo com o ATLAS, 7% das interações profissionais com IA no Brasil estão associadas a atividades como diagnóstico de equipamentos e resolução de problemas em tempo real.
A proporção é a mesma registrada na Alemanha e equivale a 1,4 vez a média global apresentada pelo Google. No Japão, o índice é de 4%. Os números indicam que a tecnologia não está concentrada apenas em programação, produção de textos, análise de documentos ou outras funções tradicionalmente ligadas ao trabalho de escritório.
Em ocupações técnicas e predominantemente físicas, sistemas conversacionais e recursos multimodais podem servir como apoio para interpretar resultados de testes, identificar possíveis falhas, consultar procedimentos e buscar informações durante a execução de uma tarefa. O levantamento cita esse tipo de aplicação como parte da expansão do uso profissional da IA para além dos ambientes corporativos convencionais.
Na prática, técnicos, mecânicos e outros profissionais podem recorrer a ferramentas digitais para obter orientação contextual enquanto trabalham. Isso não significa necessariamente substituição da atividade humana. Em muitos casos, a inteligência artificial funciona como um recurso de consulta, aprendizado e suporte à tomada de decisão, mantendo a execução e a validação sob responsabilidade do trabalhador.
O que os dados do ATLAS mostram
O AI & Economy ATLAS é baseado em dados agregados e anonimizados de produtos do Google, incluindo o Gemini, o Modo IA e a API Gemini. Por isso, os resultados devem ser interpretados como um indicador de tendências observadas em uma parcela relevante do uso dessas ferramentas, mas não como uma medição de todas as soluções de inteligência artificial disponíveis no Brasil.
O Google Brasil explica que a iniciativa busca acompanhar a economia da IA a partir de diferentes dimensões, como adoção, formas de interação e distribuição do uso entre atividades profissionais. A metodologia baseada em dados agregados também impede a identificação individual dos usuários analisados.
Outro ponto indicado pelo estudo é a diferença entre assistência e automação. A maior parte das interações profissionais observadas está ligada à colaboração, à busca de informações, ao aprendizado e ao apoio para realizar tarefas. A automação completa aparece com menor frequência, o que reforça a ideia de que a adoção atual ocorre, em muitos casos, como complemento ao trabalho humano.
Inteligência artificial na ciência
Uma pesquisa complementar amplia o debate sobre os efeitos práticos da tecnologia. O estudo AI in Science: Early Insights, publicado pelo MIT FutureTech em 16 de setembro de 2026, foi elaborado com participação de pesquisadores do Google e do Google DeepMind.
O trabalho analisou mais de 2.600 modelos especializados, uma amostra de 15 milhões de interações com o Gemini e respostas de mais de 600 cientistas. Segundo os resultados divulgados, os pesquisadores relatam economizar quase sete horas por semana com o uso de IA em suas atividades.
Ao mesmo tempo, a pesquisa identifica novos gargalos. A aceleração na formulação de ideias e na produção de hipóteses aumenta a pressão sobre etapas como validação, realização de experimentos físicos e condução de pesquisas clínicas. Assim, o ganho de velocidade proporcionado pelas ferramentas não elimina a necessidade de revisão, comprovação e análise especializada.
No caso brasileiro, os dados do ATLAS reforçam que o uso de inteligência artificial já alcança diferentes ambientes profissionais. A expansão para tarefas manuais e técnicas mostra que a discussão sobre a tecnologia envolve não apenas automação de empregos, mas também qualificação, produtividade e apoio à execução de atividades em setores variados.
