‘Se jogue porque vale a pena’: as histórias de programadores que trabalham fora do Brasil

Akari Ueda diz que aproveitou o máximo que a faculdade tinha a oferecer. Durante os cinco anos de ciências da computação, fez projetos de iniciação científica, monitoria, foi voluntária e participou de maratonas de programação (os chamados hackathons).

Poucos meses depois da formatura, a engenheira de software de 25 anos participou de um programa de recrutamento para universitários da Microsoft e atualmente trabalha como programadora no Canadá.

“Eu não queria sair do Brasil, mas a curiosidade de morar fora e a situação do país pesaram na decisão. Me mudei para Vancouver em agosto de 2021”, conta a engenheira de software.

A dica que Akari dá para os profissionais que buscam oportunidades semelhantes é reforçar o currículo e o portfólio com qualidades que você possa provar.

“Não basta só escrever ‘sou proativo’, isso qualquer um pode escrever. Você demonstra ser proativo através das suas experiências. Participe de eventos, de hackathons, faça projetos voluntários, mostre com ações. Com a parte técnica é a mesma coisa, escrever que você sabe uma linguagem de programação não prova nada. Você precisa ter projetos e experiências usando aquela linguagem”, explica Akari.

Veja abaixo outras histórias e dicas de quem trabalha no mercado de TI no exterior:

De entregador a desenvolvedor em 1 ano
Curso de inglês virou emprego na Irlanda
‘Traumatizado’ em Portugal
Vida mais equilibrada na Suécia

De entregador a desenvolvedor em 1 ano

Entregador de comida, pizzaiolo, caixa de mercado. Durante a pandemia, Matheus Heck, de 27 anos, teve todas essas profissões enquanto fazia um curso de gestão de indústrias criativas em Berlim, na Alemanha.

Formado em rádio e TV, Heck esperava voltar ao Brasil e trabalhar com a produção de conteúdo. Só que, durante o curso, ele teve mais contato com o mundo da programação e foi conquistado pela área.

A possibilidade de trabalhar de forma remota e a garantia de emprego são outros dois diferenciais do campo de TI, segundo o engenheiro de software.

“Produção não tinha vaga nunca, era superdifícil. [Em programação], depois que você está empregado em uma empresa com visibilidade, o LinkedIn não para, dá para escolher”, conta o programador.

Heck diz que se interessava por programação antes de decidir que essa seria sua carreira e que acelerou os estudos com ajuda de dois cursos intensivos e que, no total, estudou cerca de um ano até conseguir um emprego na área.

Há sete meses, Matheus trabalha em uma startup de recrutamento da Holanda – ele conta que se mudou para Rotterdam e tem planos de longo prazo para a carreira na Europa.

“Minha dica é: se aventure, se jogue. [Na área de TI] descobri que fazendo muito menos do que em outras profissões você pode ser valorizado. É tão bom”, conta Heck.
Outra dica do programador é escolher uma tecnologia e focar nos estudos. “Se você gosta de aplicativos, foque em uma tecnologia de desenvolvimento para celular, se gosta de Apple, estude Swift [linguagem usada nos apps da marca]. Se ainda não souber do que gosta, escolha uma ferramenta generalista, que permita fazer de tudo”, indica Heck.

O programador explica que sua remuneração é praticamente o dobro do salário mínimo na Holanda e tem colegas que ganham mais em grandes companhias de tecnologia do continente.

A ideia de Heck é ganhar mais experiência na startup onde trabalha até encontrar uma vaga com condições melhores.

“Aqui as próprias empresas sabem que, se não pagarem bem, você vai embora”, explica o engenheiro de software.

Curso de inglês virou emprego na Irlanda
A história de Lucas Zerma, 32 anos, como programador na Irlanda começou com um intercâmbio em 2015. Ele conta que já atuava como desenvolvedor de software no Brasil e juntou dinheiro para passar um ano aprendendo inglês.

“Eu estava preparado mentalmente para trabalhar com o que viesse. Meu inglês era bem precário, então o foco era aprender o idioma, mas, em duas semanas, eu consegui um emprego na área de TI, em uma empresa familiar”, conta Zerma.

O programador explica que passou a se candidatar para vagas na Irlanda antes mesmo da viagem, usando um currículo em inglês “cheio de erros”.

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Depois de sofrer com a comunicação nos dois primeiros anos, o programador diz que se comunicar bem em inglês é o primeiro ponto para quem quer trabalhar e avançar na carreira fora do Brasil.

“Se eu pudesse dar uma dica para o Lucas de dez anos atrás seria aprender inglês. O desenvolvedor por ficar enfurnado codificando, mas tem que conversar com os colegas, participar de reuniões, entender o que está sendo escrito e falado. É essencial”, indica Zerma.

Apesar de “ganhar bem” em relação ao salário de um profissional de outro setor, o brasileiro explica que há empresas que “exploram estrangeiros”.

“No começo, eu ganhava o mínimo. Só para eu poder me candidatar ao visto de trabalho”, conta Zerma. O desenvolvedor explica que, nos últimos anos, o custo de vida aumentou por conta do crescimento do número de empresas de tecnologia na cidade.

Por conta do custo elevado, o desenvolvedor se mudou para uma região próxima de Dublin para ter uma vida mais confortável, pagando menos no aluguel.
Formado em gestão de informação, o programador diz que aproveitou para fazer um mestrado em arquitetura de software na Irlanda – o que abriu as portas para empregos melhores no mercado local.

Há cerca de três meses, ele aceitou uma proposta para trabalhar como desenvolvedor de software na Microsoft. Apesar de todo o processo seletivo ter sido feito de forma remota, Zerma acredita que já estar na Irlanda foi um ponto positivo para os selecionadores.

“Ter um endereço e um telefone local faz diferença para os recrutadores aqui na Irlanda, porque é mais fácil para eles pegarem alguém aqui do que contratarem quem está distante”, conta o programador, que já até entrevistou alguns brasileiros para seu time na gigante da tecnologia.

‘Traumatizado’ em Portugal
Apesar do idioma não ser uma barreira, o desenvolvedor front-end Jean Schwab, de 36 anos, teve uma experiência muito ruim em Portugal.

Ele conta que trabalhava em uma “boa empresa” da área de seguros no Brasil, mas foi convencido pela curiosidade de morar fora. Além de um salário atraente, a companhia europeia se ofereceu para pagar a documentação necessária para o visto de trabalho.

Depois de vender móveis, eletrodomésticos e se desfazer do apartamento que alugava, Schwab se mudou para Portugal em abril de 2021. Dez meses depois, o desenvolvedor voltou para casa se sentindo “traumatizado”.

Segundo ele, mesmo quem está imigrando com um emprego certo ainda é uma minoria e pode sofrer preconceito. Além disso, Schwab afirma que não estava preparado para ficar longe dos amigos.

“O mercado está sim aquecido, mas é preciso ter cuidado para não se frustrar. Foi a primeira vez que eu saí do Brasil para trabalhar fora e eu notei a solidão dos amigos. Morar em outro país, por mais que fale o mesmo idioma, é algo para o que nada na vida te prepara”, conta o desenvolvedor.
Agora, Schwab mora em Curitiba e trabalha de forma remota para uma empresa do Canadá. Mas planeja se mudar para o exterior novamente. “A nova empresa oferece estrutura e suporte absurdos para quem é de fora”, destaca. “O pessoal foi mais receptivo e amigável. Eu estava traumatizado, mas agora me sinto em um caminho muito mais confortável.”

Vida mais equilibrada
Daniel Amarante, de 32 anos, sempre ouvia histórias de colegas se mudando para fora do país e pensava “quando seria sua vez”. Ele trocou a faculdade de direito pelas ciências da computação incentivado por “amigos de TI” e atua como desenvolvedor mobile desde 2015.

“Sempre tive a ideia de morar fora do Brasil. Chegou um momento em que simplesmente decidi que ia procurar por empresas que me interessavam e me candidatar. A oportunidade é uma coisa que se cria”, diz Amarante.

A chance de trabalhar fora do Brasil veio durante a pandemia. Em novembro de 2020, ele aceitou uma proposta de uma companhia de aplicativos da Suécia.

O desenvolvedor conta que ter um diploma ajudou no seu processo de imigração porque o documento é uma forma da empresa “comprovar que vale a pena investir no profissional”.

Há um ano e meio na Europa, Amarante se diz adaptado, apesar de sentir falta da comida e dos amigos. “A relação que as pessoas têm com o trabalho é bem melhor. Tem muito mais equilíbrio entre a vida pessoal e profissional. No Brasil, parece que as pessoas vivem para trabalhar”, aponta o programador mobile.

 

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