Ministério Público atribui incêndio na Cinemateca a erro em troca de gestão

O Ministério Público Federal (MPF) se posicionou sobre o incêndio na Cinemateca Brasileira e disse que os prejuízos ainda estão sendo avaliados. Segundo o MPF, serão priorizados o salvamento do material restante e a prevenção de nova tragédia, para só depois ser implantada uma nova entidade gestora para a Cinemateca e apurar as responsabilidades individuais.  O procurador Gustavo Torres Soares, que está à frente do caso da Cinemateca, disse que o grande erro está na transição da gestão entre 2019 e 2020. “O Ministério Público comunicou o poder Judiciário por ação civil pública, ajuizada em julho do ano passado, essa falta de gestão e o perigo que ela resultava. Ocorre que de lá para cá a Cinemateca continua sem uma entidade gestora e essa falta de gestão causou a tragédia e poderá causar tragédias semelhantes”, disse Torres Soares.

O galpão da Cinemateca pegou fogo na última quinta-feira, 19, e boa parte do maior acervo audiovisual da América Latina foi queimado. As causas do acidente ainda são investigadas,  mas a primeira hipótese é de o fogo começou com uma falha técnica durante um reparo no ar condicionado de uma das salas do galpão. O caso, que estava sendo apurado pela Polícia Civil, agora passa para as mãos da Polícia Federal. O pedido para a PF apurar o caso foi feito pela Secretaria Especial da Cultura, que é a responsável por administrar a Cinemateca. Marcelo Lima é engenheiro e presidente do Instituto Sprinkler Brasil, entidade que trata de prevenção de incêndios no país. Para ele, acidentes como esse não acontecem por acaso e podem ser evitados.

Marcelo diz que grande parte dos museus têm medo de utilizar o sistema Sprinkler, que são aqueles “chuveirinhos” que ficam no teto e despejam água quando começa um incêndio, por acharem que eles podem ser acionados do nada e inundar o local. No entanto, ele explica que o sistema é muito seguro e os sprinkler são colocados no lugar certo e não liberam grandes quantidades de água. O engenheiro diz que, nos últimos 21 anos, ocorreram 10 incêndios em patrimônios públicos e que isso não pode continuar acontecendo. “O Brasil está virando um mal exemplo no mundo. Se a gente pegar do século XX para cá, a gente teve pelo menos 10 grandes incêndios em prédios de patrimônio. Incêndios catastróficos. Não é normal, não é algo que a gente deve aceitar como se fosse uma fatalidade. Se isso está acontecendo, a gente precisa tomar cuidado, precisa cuidar da saúde do prédio e do sistema de proteção”, defendeu Marcelo Lima.

Maria Dora Mourão, professora titular de Cinema, Rádio e Televisão da ECA-USP e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual, acredita que falta apoio à cultura no Brasil.  “A grande crise da Cinemateca começa em 2013 e ela vem, sim, lutando contra os seus problemas e contra o esse movimento contracultura. De maneira geral, está faltando uma política pública para a cultura neste país. Isso faz com que esses acontecimentos sejam tão dolorosos, porque não sabemos agora como isso vai ser recomposto, como vai ser reconstituído”, afirmou a professora. O Corpo de Bombeiros fez uma vistoria de fiscalização na Cinemateca e realizou uma advertência no estabelecimento por não ter o certificado AVCB, que atesta a segurança dos edifícios. Segundo os bombeiros, foi dado um prazo de 180 dias para que seja feita a regularização. 

*Com informações da repórter Camila Yunes