Um estudo publicado nesta sexta-feira (22) na revista médica The Lancet, uma das mais importantes do mundo, revelou que o uso da cloroquina no tratamento da covid-19 não tem benefícios comprovados e pode aumentar o risco de morte por problemas cardíacos, como arritmia. A pesquisa foi feita com 96 mil pacientes em 671 hospitais dos seis continentes.

Nesta semana, o Ministério da Saúde havia divulgado um novo protocolo liberando o uso do medicamento para todos os casos da doença, desde os sintomas mais leves. A mudança no protocolo era um desejo do presidente Jair Bolsonaro e, antes disso, o assunto já tinha feito com que dois ministros da saúde — os médicos Luiz Mandetta e Nelson Teich — pedissem demissão por não concordarem com a insistência em relação ao remédio. 

A medida que amplia o uso da cloroquina foi autorizada pelo general Eduardo Pazuello, que assumiu interinamente a pasta e não tem formação na área da saúde. A decisão instalou um debate polêmico entre médicos e autoridades políticas, inclusive na Bahia. 

Após o novo estudo vir a público, o governador Rui Costa se posicionou: “Torço muito para que o Brasil pare de politizar os medicamentos utilizados no tratamento da covid-19. Medicamento quem receita são os médicos, quem desenvolve e comprova eficácia são os cientistas. O que está em jogo é a vida das pessoas”. O governador disse que na Bahia a decisão de uso será uma escolha individual de cada médico.

Iniciada em dezembro do ano passado e concluída na metade de abril, esta é a primeira pesquisa a analisar a prescrição da cloroquina/hidroxicloroquina em larga escala. Do total de participantes, quase 15 mil receberam o remédio, com ou sem antibiótico (azitromicina), e mais de 81 mil não passaram pelo tratamento. Todos os pacientes envolvidos tinham apenas cerca de 48h que tinham recebido o diagnóstico positivo para a covid-19. Os cientistas concluíram que o risco de morte foi maior para os grupos tratados com o medicamento.

Relevância

Infectologista e professora de infectologia do Estratégia Medicina, Clarissa Cerqueira conta que a pesquisa causou rebuliço no meio médico. “É um estudo que teve grupos heterogêneos, em diferentes países. Se fosse um trabalho que tivesse pego um único hospital, teria um viés. Esse pegou vários locais e pessoas, o que minimiza erros”, explica ela. 

Antes deste, o outro  estudo relevante sobre o assunto tinha avaliado cerca de mil pessoas. A médica explica que o novo conteúdo é ainda mais interessante porque conseguiu trazer em números que as medicações, usadas de forma associadas ou puras, aumentaram o risco de morte. Na expectativa dela, essas revelações cada vez mais claras podem fazer com que os Ministérios da Saúde em todo o mundo reavaliem o uso da substância.

“Outros estudos já vinham dizendo o mesmo e as pessoas estão a cada dia mais cientes dos efeitos colaterais do uso em massa dessas medicações. No dia a dia, a gente vinha oferecendo para as pessoas e elas já recusam”, conta.

Na avaliação dela, faz pouco sentido liberar o medicamento para pessoas com sintomas leves porque os casos simples podem melhorar espontaneamente, portanto, a prescrição da medicação tóxica e incerta poderia, inclusive, fazer mais mal do que bem ao paciente.

Mas o quanto os médicos no Brasil estão atentos às publicações científicas?

A professora de infectologia conta que as redes sociais têm ajudado na disseminação do conhecimento. Tão logo o artigo foi publicado, já corria o arquivo e a discussão nos grupos de WhatsApp de especialidades médicas. Esse acesso às novas informações, acredita ela, pode fazer com que os profissionais repensem e até abortem o uso da cloroquina.

Doutor em microbiologia e estudando coronavírus, o biólogo Átila Iamarino é ativo nas redes sociais e usou o Twitter para destrinchar os resultados do estudo, que apontou que a terapia com o medicamento aumentou entre duas a cinco vezes o risco de arritmia cardíaca. 

“Normalmente, se espera que um tratamento diminua as chances da pessoa morrer ou ter complicações. No caso de qualquer combinação de cloroquina ou hidroxicloroquina, o risco de morte aumentou consistentemente. Isso porque normalmente esses riscos variam ao longo de meses. No caso dessas terapias com cloroquina, esse aumento do risco de morte foi registrado em dias, nas poucas semanas de acompanhamento”, escreveu o biólogo. 

Nordeste e OMS

Um dia antes da pesquisa ser publicada, o Comitê Científico de Combate ao Coronavírus, formado por cientistas do Nordeste, já tinha se manifestado contrário à prescrição do remédio para pacientes infectados pelo novo vírus justamente por não haver comprovação de benefícios. 

O grupo emitiu um boletim alertando para os graves efeitos colaterais da cloroquina, inclusive a morte súbita por parada cardíaca, insuficiência hepática e renal. A Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), assim como a Organização Mundial da Saúde (OMS), já haviam endossado que o remédio não é recomendado.

Ao CORREIO, o secretário estadual de saúde, Fábio Vilas-Boas, explicou que a regulamentação de qualquer tratamento no país é feita pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), que ainda não se manifestou após a divulgação do estudo. A reportagem tentou contato com o conselho e aguarda posicionamento. 

Desde a primeira semana de abril, a Secretaria de Saúde da Bahia (Sesab) disponibiliza, mediante prescrição médica, o uso associado da hidroxicloroquina e azitromicina para pacientes exclusivamente internados no SUS com diagnóstico positivo para a covid-19. No entanto, a secretaria esclarece que, embora libere, a ação não se trata de uma recomendação de uso e que se limita mais a um medicamento à disposição do médico, assim como a ivermectina e tocilizumabe, outras alternativas para pacientes hospitalizados pela doença. 

“O ato médico é uma decisão individual, por isso, o profissional, normalmente em debate com a equipe assistencial da unidade e avaliando o perfil de cada paciente, opta por uma linha de tratamento. Não há protocolos, nem recomendações estabelecidas”, disse em nota.

Forma de uso e efeitos colaterais

A cloroquina e a hidroxicloroquina (menos tóxica) são usadas há anos, e com benefícios comprovados, no tratamento da malária e de algumas doenças reumáticas, como artrite reumatoide e lúpus. A partir deste novo protocolo, pacientes com sintomas leves de covid-19 como perda de olfato e paladar, coriza, diarreia, febre, tosse e dor de cabeça poderão usar o remédio mediante prescrição e assinatura de termo de consentimento. 

O próprio Ministério da Saúde esclarece que a cloroquina e a hidroxicloroquina podem causar efeitos colaterais como disfunção do fígado, problemas cardíacos e arritmias, além de alterações visuais por danos na retina e redução de glóbulos brancos — células responsáveis pelo sistema imunológico. Portanto, o uso do medicamento deve ser uma escolha do médico para salvar vidas.

O termo de consentimento, que deve ser assinado pelo paciente, ressalta que “não existe garantia de resultados positivos” que “não há estudos demonstrando benefícios clínicos”.

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