Youtuber é alvo de inquérito por ‘induzir compulsão alimentar e obesidade infantil’

O Ministério Público de São Paulo instaurou um inquérito civil para investigar o canal no YouTube da influencer Luiza Parente. Após receberem denúncias relatando que vídeos publicados pela youtuber desrespeitavam o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), as Promotorias de Direitos Humanos e da Infância e Juventude da Capital estabeleceram o procedimento. As queixas contra Parente, que acumula mais de quatro milhões de inscritos em seu canal no YouTube e quase seis milhões de seguidores no Instagram, apontam conteúdos que incentivam a ingestão excessiva de alimentos gordurosos, compras descontroladas e tentativas de retardar necessidades fisiológicas.
“Recebemos uma representação contra os vídeos através de uma senhora que descobriu o canal em um grupo online de mães. Nele existem vários desafios perigosos como ‘quem comer mais fast food ganha’, ‘quem comer mais rápido ganha’, ‘quem comer mais sorvete ganha’, entre outros. Uma das mães que denunciou tem um filho de seis anos que está comendo compulsivamente em decorrência do consumo dos vídeos”, disse a promotora Luciana Bergamo, que está investigando o caso. Na representação protocolada, a denunciante que não quis se identificar afirma que “o conteúdo do canal é extremamente inadequado” porque nele “é possível ter ciência de diversos desafios relacionados a comidas de péssima qualidade, compras descontroladas e segurar o xixi”. Segundo a promotora, a situação é preocupante já que os vídeos “induzem a compulsão alimentar e a obesidade infantil”. 
Atualmente, os especialistas da saúde tem emitido um alerta vermelho sobre a alimentação dos pequenos. De acordo com os dados do Ministério da Saúde divulgados em outubro, três em cada dez crianças, de cinco a nove anos de idade, estão com sobrepeso. No Brasil, 9,4% das meninas em fase infantil são consideradas obesas e 12,4% dos meninos também atingiram a condição. No mundo, os dados apontam que nas últimas quatro décadas a quantidade de crianças e adolescentes obesos saltou de 11 milhões para 124 milhões. Para a endocrinologista pediátrica Georgette Beatriz de Paula, estes conteúdos têm um grande potencial de interferir nas vidas das meninas e meninos. “Dependendo da idade, as crianças e adolescentes querem fazer parte de um grupo. Para serem aceitos, muitas vezes, acabam fazendo o que a maioria dos outros jovens fazem. Então, quando famosos vendem exemplos incorretos como ‘brincadeiras descoladas’, os jovens tendem a repeti-los”. A endocrinologista ressaltou que as “brincadeiras descoladas” podem desencadear “consequências gravíssimas” para o resto da vida dos indivíduos. “Nesta fase, jovens com a alimentação desequilibrada estão suscetíveis a desenvolverem transtornos alimentares e doenças como diabetes tipo 2, que tem atingido as crianças, hipertensão e alteração do colesterol. Geralmente essas doenças se iniciam com um ganho de peso exagerado na infância e suas consequências podem se arrastar até a fase adulta.”
A psicóloga do espaço Canto Baobá, Ana Albuquerque, considera fundamental a atenção dos pais e responsáveis ao conteúdo que está sendo consumido pelas crianças na internet. “Na fase infantil, a criança é como uma esponja porque absorve os estímulos ao entorno para criar seu próprio repertório e se desenvolver. Neste ponto, é importante observar quais conteúdos estão sendo consumidos já que, apesar da criança ter vontades próprias, ainda está construindo suas questões internas. Podem surgir sérios problemas psicológicos nos pequenos caso o consumo de conteúdo ocorra de forma totalmente livre. Por isso a internet deve ser apenas mais um instrumento de experimentação. Para além do online, a criança precisa desenvolver atividades e experiências off-line, estabelecendo o convívio social”.
Segundo Ana, apesar da exposição oferecida pelas redes, a proibição ao acesso não é um bom caminho. “É preciso dar autonomia para a criança sem perder de vista o que ela está acessando. Proibir o acesso à internet pode isolá-la ou criar uma falsa sensação de segurança para os responsáveis, já que a criança terá o contato com o online por meios alternativos, muitas vezes sem supervisão, como através de colegas. Neste sentido, o diálogo é fundamental. Os responsáveis precisam praticar uma escuta clara e uma conversa direta, sem esconder o que existe ali. Apenas assim as crianças se sentem seguras para compartilhar suas vontades e criar acordos com os pais”, diz a especialista. Ana pontua ainda que a classificação etária do YouTube e a ferramenta “YouTube Kids” podem ser bons aliados na educação digital porque filtram conteúdos que os pequenos não estão preparados para absorver, como vídeos de cunho sexual ou que abordem violência.
O Ministério Público de São Paulo apontou 13 vídeos publicados por Luiza Parente em que, supostamente, há violação de direitos básicos e solicitou ao Google que os analise. Caso o Google conclua que os conteúdos infringem as próprias regras da plataforma, o MP-SP solicita que os tirem do ar. Além das denúncias envolvendo o consumo desenfreado de alimentos calóricos, a investigação também analisa se está ocorrendo o trabalho infantil sem regulamentação, uma vez que a youtuber e seu irmão mais novo comumente fazem propaganda de marcas em seus vídeos. A promotora Luciana Bergamo ressaltou que o pedido de exclusão dos conteúdos não se pode ser considerado censura ou cerceamento da liberdade de expressão. “A obesidade infantil é um problema sério de saúde pública. A liberdade de expressão é constitucionalmente assegurada, mas ela não pode se sobrepor a outros direitos, como o direito à saúde pública e, em última instância, o direito à vida, que também são assegurados pelas leis. Não podemos deixar a responsabilidade do controle alimentar apenas para os pais e responsáveis. É um dever de todos nós, da família, do Estado, da sociedade e do poder público”, concluiu. Procurados pela reportagem, a youtuber Luiza Parente e sua equipe não se pronunciaram até a publicação desta reportagem.