Ações sociais tentam cobrir lacuna de política pública no bairro paulistano onde se morre mais cedo

Nascido e criado no Jardim Ângela, extrema zona sul da capital paulista, o professor Cid Gonçalves, de 39 anos, usa projetos musicais para tocar a vida de alunos da escola Professor Cícero Canuto de Lima, uma das cinco instituições de ensino estaduais alocadas no distrito de 334 mil moradores. Testemunha ocular da história do local, que já foi considerado o mais violento do mundo pela Organização das Nações Unidas (ONU), ele é uma das pessoas que trabalha pela transformação do bairro. Apesar da árdua caminhada, não faltam opiniões baseadas em experiências pessoais sobre o que poderia melhorar no distrito onde, segundo o Mapa da Desigualdade de 2020, se morre mais cedo em São Paulo. O estigma de violência no Jardim Ângela não é recente, mas os dados são. Segundo a pesquisa da Rede Nossa SP, divulgada na manhã desta quinta-feira, 29, a idade média de morte no Jardim Ângela é de 58,3 anos – 18 anos a menos do que a média nacional e quase 22 a menos do que o local com maior expectativa de vida da capital, o Jardim Paulista, bairro nobre da capital paulista. Segundo especialistas, a marginalização dos povos periféricos e a falta de políticas públicas eficientes são alguns dos motivos que tornam os dois bairros, separados por cerca de 20 quilômetros, termômetro para saber se você tem a mesma média de vida de um holandês ou de um liberiano dentro da cidade mais rica do Brasil.

Ainda na década de 1990, com a repercussão internacional da violência, a criação de bases policiais foi comemorada por moradores da região. Para Cid, porém, ela não se mostrou efetiva por muito tempo. “Isso funcionou muito bem no começo, mas há muitos anos essa base não serve de nada. Eles não fazem uma ronda efetiva, só estão lá. É diferente de você andar por exemplo na Avenida Paulista onde a cada esquina você encontra uma viatura parada. Se você vier aqui, não vai encontrar uma viatura parada e lugar nenhum”, afirma. Para ele, uma série de fatores pode contribuir com a lacuna de políticas públicas na região, uma delas é a menor expressividade política no local em relação a outras periferias da cidade. “Entendi que se você olhar na zona leste há muito mais investimento de políticas públicas, mas por quê? Há muito mais eleitores na zona leste”, analisa. Ele pontua, ainda, que os poucos espaços de lazer fornecidos para os moradores da região sofrem com a falta de manutenção e de reparos.

Dentro da educação desde 2014 e lecionando na escola do bairro desde 2016, foi com instrumentos de fanfarra doados que ele decidiu, por conta própria, tornar o bairro conhecido pela musicalidade da escola estadual. Com recursos próprios, o professor consertou os equipamentos doados em anos anteriores e convidou alunos a aprenderem. “Os alunos no começo não queriam, achava que era meio que pagar mico, causou aquela estranheza. Aos poucos o negócio foi tomando corpo e hoje não consigo dar conta da quantidade de pessoas que querem entrar no projeto”, lembra. Há três anos, o professor conseguiu se unir a outras escolas para juntar as fanfarras e fazer um encontro. “Descemos todos até o centro do Capão Redondo e tocamos as três fanfarras juntos. Cada ano tem mais gente. Já é uma marca registrada do bairro e da escola”, lembra.

Para ele, uma das maiores concorrências na fidelização de jovens dentro do bairro é o crime organizado e o tráfico, que acaba oferecendo oportunidades de renda e bens essenciais que nem sempre os jovens periféricos têm por vias tradicionais na sociedade. “Muitas vezes o crime acaba sendo a melhor saída. O pessoal do crime dá salário, cesta básica. O jovem acha o máximo, nem entende o tamanho do problema que ele mesmo está causando”, afirma. Enquanto tenta mudar o bairro onde vive, o professor Cid Gonçalves conta nos dedos e comemora aqueles alunos que conseguiu resgatar em uma batalha contra aquele que considera o “caminho mais fácil” apresentado pelo crime. “É o saldo que eu tenho. Já consegui fazer com que, pelo menos, dois alunos saíssem desse lado errado da vida. São pessoas que hoje estão junto da gente, da comunidade, que não dão mais trabalho na escola. Sou ateu, mas me orgulho de ter levado um aluno para a igreja. Infelizmente, o investimento do poder público é tudo e falta tudo aqui”.

Cid coordena grupo de fanfarra em escola pública do Jardim Ângela

Maior população preta e parda está no bairro onde se morre mais cedo

Além de ter a menor expectativa de vida da capital, o bairro de Jardim Ângela concentra a maior população preta e parda de São Paulo, com 60,1% dos moradores autodeclarados. O número é quase duas vezes maior do que a média geral, de 35,3%, e mais de dez vezes maior do que o bairro com menor valor, Moema, na região centro-sul da capital, que tem 5,8% dos moradores pretos ou pardos. O número, para especialistas, não é uma coincidência e mostra que a população negra está mais exposta a vulnerabilidades socioeconômicas. Para Maria José de Menezes, membra da Coalizão Negra por Direitos e da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo, essa ligação é uma herança histórica do planejamento de povoamento da capital. “Houve um processo de higienização no grande centro, assim como no país inteiro. A Liberdade era um bairro negro, como o Bixiga, a Vila Madalena e muitas regiões do centro que simplesmente varreram a memória da população negra. Na primeira metade do século vinte você joga essas populações para a periferia e mais do que isso: você não dá nenhuma condição de acesso à saúde, acesso a transporte, ao trabalho”, diz a pesquisadora. Ela explica que, na literatura, o termo “higienização” significa tirar o elemento negro de um território anteriormente ocupado por ele e transformá-los em “territórios da branquitude”. No caso de São Paulo, o bairro da Liberdade foi posteriormente palco de ocupação nipônica e o Bixiga de ocupação italiana.

O coordenador geral da Rede Nossa São Paulo, Jorge Abrahão, explica que a relação entre a maioria da população negra e a baixa expectativa de vida e mostra quem está do lado mais vulnerável da capital. “A população negra na verdade está vivendo nos espaços mais vulneráveis. Existe uma desigualdade muito grande, eles moram nos lugares mais vulneráveis e a pesquisa prova isso”, analisa. “Precisamos criar políticas, do ponto de vista de uma melhoria dessa infraestrutura, e de uma ação também para que a população preta e parda tenha uma prioridade em relação a essas políticas para que esses espaços vulneráveis melhorem”, pontua. A expectativa da inclusão de políticas públicas que priorizem a população preta e parda de São Paulo, porém, não é grande para Maria José de Menezes. “Já sabe-se muito sobre essa diferença de expectativa de vida em uma mesma cidade, em uma metrópole. Sabe-se sobre esses indicadores e sabe-se o que faz com que haja tanta diferença nesses indicadores. O que sedimenta, o cimento de tudo isso é o racismo que permeia toda a nossa sociedade”, garante. “Não teremos políticas públicas para a redução dessa desigualdade. Essa é a questão. Quando o país aposta nisso ele está apostando na perpetuação das desigualdades dizendo ‘olha, as vidas negras não importam’”, afirma a especialista.

Um padre pelo direito à vida dos jovens

Aos 75 anos, 34 deles como pároco da igreja de Santos Mártires o padre irlandês Jaime Crowe conserva na memória os números que já colocaram o Jardim Ângela em manchetes ao redor do mundo. “Aqui chegou em 96 a ser reconhecido pela ONU como a região mais violenta do mundo, passando de Cali, na Colômbia, que tinha 80 assassinatos por 100 mil habitantes, e tendo até 120 por 100 mil habitantes”, lembra. Diante de uma região que na época era marcada pelo desemprego, pelo crack e pela violência, ele decidiu se unir a entidades civis para criar o Foro em Defesa da Vida Pela Supressão à Violência. Articulados, eles passaram a cobrar de entidades municipais e estatais a implementação de políticas públicas na região.

Padre Jaime mora na região há 34 anos

Da mesma forma que guarda na memória os antigos números de violência, o padre registra cada pequena conquista após as reivindicações. “Conquistamos o hospital da região [Hospital Dr. Moysés Deutsch, em M’boi Mirim, inaugurado em 2008] e outras coisas como escolas, ETECs. Na época, em 96, éramos cinco postos de saúde, agora somos em 19. Houve muita melhora na região, mas como eu costumo dizer, choramos muito e mamamos pouco”, lembra, detalhando que mesmo com as ofertas de saúde e educação, há superlotação e fila nos órgãos públicos. Padre Jaime diz ainda que não há cartórios, fóruns ou outros espaços burocráticos necessários no bairro. “As autoridades só olham para o centro, o cartão postal da cidade, e esquecem dessa periferia pobre e carente”, afirma. Um dos feitos do qual o padre mais se orgulha é a Caminhada Pela Vida e Pela Paz, que reúne desde 1996 em todos os Dias de Finados famílias do bairro em caminhada até o cemitério de São Luiz, que por muitas vezes enterrou as vítimas da violência. Para o padre, assim como para o professor, qualquer jovem periférico que sobrevive às estatísticas impostas pela lacuna de serviços públicos no Jardim Ângela é um motivo a comemorar. “Salvar uma vida já valeu a pena e graças a Deus salvamos muitas vidas e levantamos o ânimo, a autoestima de muitos jovens através de muitas ações que tem na região. É lamentável que tantos morreram, mas felizmente tantos sobreviveram”.

Na próxima segunda-feira, quando a caminhada pela paz articulada pela paróquia junto à sociedade civil completa 25 anos, um jovem com a mesma idade do projeto vai plantar no Cemitério São Luiz uma árvore que simboliza a esperança. Para os moradores, muito já melhorou, mas o caminho a ser traçado ainda é longo. “A região ainda é de muita desigualdade, muito abandono, muita falta de moradia, muito desemprego. Agora, com o Covid, tudo piorou. Mas mesmo assim somos um povo de esperança, um povo trabalhador, comprometido com a vida. Defendemos a vida especialmente da nossa juventude pobre, negra e periférica. Nesse espírito caminhamos e os ventos estão trazendo muita esperança para nós”.

Políticas públicas na região

Segundo Jorge Abrahão, o intuito da Rede Nossa ao fazer a pesquisa – publicada anualmente desde o ano de 2012 – era evidenciar que uma das cidades mais ricas da América Latina é repleta de desigualdade. “Na verdade, essa desigualdade é produzida. Ela é produzida por políticas públicas. Não é uma questão natural, ela é produzida durante décadas”, explica. Para ele, a solução para essas desigualdades está dentro da própria pesquisa: basta olhar os bairros com melhores números sociais positivos. “Usando esse momento que a gente está vivendo, eu te diria que existe a vacina. Qual é a vacina? A vacina é você ter socialmente as condições que tem neste distrito mais rico”, pontua. Para Maria José, os dados são assustadores, mas, de acordo com o histórico das políticas públicas do Brasil, podem não ser suficientes para alterar a engrenagem que alimenta a desigualdade no país. “Há mais de 100 anos a gente tem informações, você tem denúncias. Da metade do século passado para cá você tem esses indicadores muito mais consolidados e mesmo assim você não tem políticas públicas específicas para resolver, amenizar ou diminuir essas desigualdades. Ou seja, o próprio estado ele não só não dá a importância e não aplica essas políticas, como também é um ‘auxiliar’ para que essa expectativa de vida dessa população seja menor”, diz a pesquisadora, que é categórica ao afirmar que políticas públicas para redução dessa desigualdade no país não devem ser esperadas a curto prazo dentro de um governo liberal.

Ações adotadas pela prefeitura e governo do Estado

Questionado sobre as críticas de falta de ação cultural no Jardim Ângela, a Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo afirmou que “apoia o projeto Favela Fest, primeiro festival cultural de favelas de São Paulo, que visa valorizar as manifestações artísticas em cerca de 400 comunidades de todo o Estado, revelando talentos na música e na economia criativa, bem como capacitando e gerando emprego e renda”. A pasta não detalhou, porém, se o bairro citado na questão faz parte desse projeto e afirmou que ele encontra-se suspenso devido à pandemia da Covid-19.

Também questionada sobre a falta de políticas públicas no bairro, a Prefeitura de São Paulo afirmou que “tem trabalhado e ampliado a rede de serviços públicos para toda a cidade, com atenção especial às regiões mais populosas”, e que nos últimos quatro anos foram criadas 4,8 mil vagas em 30 novas creches, o que representaria o maior aumento de aberturas por distrito na cidade. Apesar desse dado, segundo o levantamento da Rede Nossa, o Jardim Ângela está em nono lugar no tempo de espera por atendimento em creche, com média de 103 dias de espera. Segundo a prefeitura, tempo de permanência dos alunos dentro da sala de aula também aumentou, com 500 crianças atendidas pelo São Paulo Integral e passando pelo menos 7 horas diárias nas instalações.

O órgão também citou dois Centros Educacionais Urbanos (CEUs), em Guarapiranga e no Vila do Sol, que têm piscinas, quadras poliesportivas, biblioteca, teatro e espaço multiuso. “Todos os CEUs são abertos à comunidade local, que pode usar a estrutura para a prática de esportes, lazer e cultura”, afirmou trecho da nota. Durante a entrevista, o professor Cid citou o CEU do Guarapiranga, mas lembrou que o acesso ao local é difícil. “Ele fica na borda da represa, então só quem mora lá que tem como chegar lá. A gente [do centro do Jardim ngela] não tem Etec, nao tem Fatec… As escolas estaduais na qual eu trabalho são escolas antiquíssimas, construídas todas de 1990 e 1980 pra trás e que só são pintadas, só isso. Não tem nenhum tipo de recursos”, alegou. Além dos dados de educação, a prefeitura também elencou uma série de ações voltadas para a cultura, citando a Casa de Cultura de M’Boi Mirim, o Centro Cultural de Grajaú (localizado a cerca de 20 quilômetros de distância do bairro), as bibliotecas de Campo Limpo (a cerca de 10 quilômetros de distância do centro do Jardim ngela) e de Santo Amaro (também a pouco mais de 10 quilômetros de distância). O parque M’Boi Mirim, também de propriedade municipal, foi apontado como uma área de lazer e Centros Desportivos Comunitários como áreas de esporte.

A prefeitura citou, ainda, nove pontos de Wi-Fi livre no bairro, 13 telecentros, 45 serviços de rede socioassistencial, 54 equipamentos públicos de saúde (incluindo UPAs e UBSs), requalificação de praças e obras emergenciais. “De janeiro a setembro deste ano, foram tapados 2.198 buracos e podadas 3.034 árvores na área administrada pela Subprefeitura M’ boi Mirim. Foram limpos mais de 22.800 metros de extensão de córregos na região, com a retirada de 1.360 toneladas de detritos”, afirmou. A Secretaria Municipal de Segurança Urbana de São Paulo afirmou em nota que, junto à Guarda Municipal, tem como uma das atribuições “realizar o policiamento preventivo na Cidade contribuindo com outros órgãos de segurança pública, reduzindo assim, os índices de criminalidade e trazendo mais segurança a população. Compete ainda, apoiar a Prefeitura sempre que solicitada, garantindo a prestação dos serviços e a proteção dos agentes públicos, zelando pelos bens, serviços e instalações, além de manter a ordem no município”, afirmou nota. A Secretaria de Segurança Pública do estado foi acionada, mas não respondeu à Jovem Pan.