Morador do Alemão faz impressora 3D com sucata e ganha prêmios

Impressora foi constru?da como projeto de conclusão do curso de Engenharia Mecânica

O desejo do engenheiro mecânico Lucas Lima, de 24 anos, é transformar as favelas cariocas em verdadeiras “wakandas” – como a nação negra, rica e ultratecnológica do filme “Pantera Negra”.

Os primeiros passos rumo a esse sonho já foram dados. E foram passos largos: do lixo a uma impressora 3D, e do alto de sua casa no Complexo do Alemão, Zona Norte do Rio, ao reconhecimento em premiações de peso.

“Eu quero ver jovens periféricos, que a sociedade não dá nada por eles e os tratam como uma simples estatística, serem desenvolvedores de tecnologia.”

Lucas é o oitavo personagem da série “Bem do Rio”. Em reportagens especiais, o G1 mostra a história de cariocas – da gema ou de alma – que nutrem uma relação especial com a cidade.

Conhecedor da realidade vivida em uma favela carioca, Lucas diz ter certeza que cultura e educação são indispensáveis para a formação de um cidadão, mas que para o desenvolvimento do indivíduo no mundo capitalista é necessário atrelar a tecnologia a estes dois pilares.

“Se eu ofereço tecnologia aos jovens de uma comunidade aumento as chances de fazerem eles crescerem igualmente aos jovens da Zona Sul que têm acesso a tudo”, aponta.

O meio que Lucas encontrou para estimular o desenvolvimento tecnológico dos jovens foi criar uma impressora 3D. Sem dinheiro, foi revirar lixo atrás de sucata eletrônica e, em dois meses, criou seu primeiro protótipo.

“Quando eu tive o primeiro contato com uma impressora 3D, fiquei maravilhado. Só que custava R$ 15 mil, e na minha realidade eu não tinha como pagar. Então, eu fui aos ferros-velhos em volta do Complexo do Alemão, do Morro do Adeus, e dali eu consegui pegar os motores e algumas peças. Depois de dois meses, eu consegui fazer a primeira impressora, que é uma graber.”

Graber é um modelo aberto, simples e eficiente que faz impressão 3D com diversos polímeros. Mas Lucas queria uma ainda melhor. Passou mais dois meses estudando muita programação e vasculhando mais lixos, até chegar a um modelo que imprime só com um tipo de polímero e que tem potencial para produção em larga escala. Ele o batizou de “Maria”, em homenagem à mãe.

“A Maria é um modelo que eu imagino, no futuro, estar em todos os colégios públicos do Rio de Janeiro. A Maria é o meu xodó, pelo que dedico mais tempo.”

Lucas conta que, desde criança, gostava de criar objetos diversos. Desmontava brinquedos para, a partir deles, construir novos.

Mais tarde, começou a modelar, com massa, personagens de seus desenhos prediletos. Quando conheceu uma impressora 3D, ficou maravilhado com o potencial.

“O que me motivou a ter uma máquina dessas é poder criar o que eu quiser. É como se ela fosse o limite máximo da minha imaginação. E se eu dou uma impressora 3D a um jovem da comunidade, ele pode fazer tudo o que quiser.”

Agora Lucas trabalha no aprimoramento da Maria para que ela esteja apta para ser comercializada.

“Para botar uma máquina dessas no mercado, eu quero que ela esteja perfeita. Quero gerar um produto acessível a todos, mas que tenha qualidade.”

“Eu quero que a Maria seja não apenas um produto, mas uma ferramenta de transformação. Eu quero que o jovem periférico que não tem condições de comprar uma impressora top de linha possa comprar a Maria e começar seus passos no mercado de tecnologia”, reitera. “Acho que até o final desse ano já tem as primeiras Marias nas ruas”, adianta.

Retorno para a comunidade

A Maria foi construída como projeto de conclusão do curso de Engenharia Mecânica. Lucas contou com uma bolsa de iniciação científica do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ) e diz querer devolver à sociedade o conhecimento que adquiriu.

“Eu tive uma lição de vida com o meu projeto. Ele não foi somente fabricar uma impressora. Eu vi que a tecnologia está aí para todos, só não está muito bem distribuída. E eu vi que é possível devolver à minha comunidade tudo o que eu aprendi.”

Formado, com a Maria e outras duas impressoras prontas, Lucas foi em busca de emprego. Bateu na porta do Liceu de Artes e Ofícios e, mais que uma vaga como professor de robótica, ganhou um espaço para instalar sua empresa, a Infil, dedicada a impressões em três dimensões.

Duas motivações o inclinaram a dar aulas. O professor de história Agnaldo Cabral, que faz questão de citar nominalmente – “que me inspirou a crescer” – e o retorno que teve ao palestrar em uma escola pública de São Gonçalo, Região Metropolitana do Rio.

“Eu vi cerca de 100 jovens praticamente sem perspectiva de futuro ali. Quando mostrei a eles três bonequinhos que eu mesmo imprimi, eles ficaram maravilhados e me perguntando: ?Tio, eu também consigo fazer??. E eu disse :’sim, vocês podem porque eu também pude'”, relembra.

Para o futuro próximo, Lucas planeja aumentar o laboratório instalado no alto de sua casa, no Complexo do Alemão. Ele dispõe de 72 metros quadrados e muita determinação. Quer fazer deste espaço um centro de qualificação dos jovens da comunidade ensinando programação, robótica, impressão 3D, corte a laser “e tudo o que eu aprendi até hoje”.

E ele deixa claro que o Alemão será celeiro dessa empreitada, que pretende espalhar pelas favelas cariocas.

“Eu vejo, daqui 5 ou 6 anos, as comunidades do Rio virando praticamente Wakandas, tendo jovens negros fazendo aplicativos impressoras 3D, criando máquinas. É isso o que eu quero para minha empresa. Não é apenas fazer um produto. O que eu quero é transformação.”.

Apoio da família e amigos

Lucas reconhece que, não fosse o apoio de sua família e o estímulo ao estudo, jamais teria chegado onde está.

“Quando eu era criança, na realidade, eu nem imaginava que faria faculdade. Mas minha família sempre fez de tudo para me colocar em escolas particulares. Sabiam que com educação de qualidade eu poderia transformar a minha realidade”.

O jovem engenheiro mecânico se diz um cientista inveterado desde a tenra infância. Contou que, curioso e ousado, quase explodiu o quarto certa vez ao reproduzir, sozinho, um experimento de eletrólise – método de separação átomos de hidrogênio e oxigênio mediante uso de uma corrente elétrica.

“Nesse dia minha avó falou: ?Tu não faz mais nada que tenha fogo ou exploda dentro desse quarto?. Mas eu não obedeci”, conta, aos risos.

Ele enfatiza que o quarto foi seu primeiro laboratório e sua “janela para o mundo”.

“Do meu quarto eu fiz reatores de oxigênio usando sucata eletrônica, barquinhos de controle remoto. Então, o meu quarto foi a janela principal para eu começar o meu desenvolvimento dentro da tecnologia.”

Mas não foi só com a família que Lucas contou. Os amigos foram indispensáveis.

“Para chegar até aqui eu precisei da ajuda de muitas pessoas. E meus amigos me ajudaram muito. Um foi me dando uma placa mãe, outro uma placa de memória, outro uma placa de vídeo, e foi assim que eu montei um computador para conseguir modelar minhas primeiras peças”, lembra Lucas, que se diz ansioso por um computador especifico para a modelagem 3D.

Lucas lembra ainda que a família se assustou quando ele gastou R$ 600 no cartão de crédito para comprar peças para sua primeira impressora. Tinham medo que ele se endividasse.

“Depois que a impressora ficou pronta e minha família viu a capacidade produtiva que eu tenho, começou a me apoiar ainda mais,. Tanto que hoje o terceiro andar da minha casa praticamente está reservado para ser o meu laboratório”, comemora.

Prêmios

No último dia 7 de outubro, Lucas recebeu primeiro recohecimento público de seu projeto. Ele foi o grande vencedor do programa Shell Iniciativa Jovem, no qual concorreu com outros 55 empreendimentos.

Lucas conquistou o prêmio principal, de R$ 8 mil, além do Prêmio Popular, que é definido por votação do público presente no evento – um prêmio extra de R$ 2,5 mil. Os recursos devem ser investidos no crescimento da Infill e em ações de educação tecnológica.

Passados 13 dias, mais um reconhecimento em dinheiro. “Fui uma das 15 startups selecionadas do programa start da Ambev, ganhando R$ 50 mil para utilizar no meu negócio e 3 meses de aceleração em São Paulo. Aconteceu bastante coisa este mês”, comemora.

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