Análise | Positivo Casa Inteligente é conveniente, mas não é para todos

O setor de automação de processos rotineiros do lar é um que seduz muita gente, mas tem a compreensão de poucos. Isso porque existem incontáveis sistemas no mercado, prometendo inúmeras vantagens, mas ao primeiro sinal de complicação na configuração, afugentam o consumidor.

A fabricante brasileira Positivo sabe disso e, aproveitando a oportunidade, está disponibilizando no varejo uma boa variedade de kits do chamado “mercado de casa inteligente”, cada um priorizando um perfil de usuários. O Canaltech esteve, nas últimas semanas, brincando com um kit básico da empresa, voltado à geração de conveniência na rotina do lar.

O material que recebemos da empresa é simples em todos os aspectos. Consiste apenas de uma lâmpada, um receptor de sinais que funciona como controle remoto universal e um plug de tomada — todos gerenciados por um aplicativo dedicado. Vamos chegar neles já, já, mas primeiro vamos nos concentrar justamente no centro de controle de tudo isso: o app em si.

Disponível na Play Store e App Store, o app Positivo Casa Inteligente traz uma vantagem que uma boa parcela dos seus concorrentes não traz: é intuitivo o suficiente para fazer até a mais analógica das pessoas navegar por ele com relativa facilidade. Ao menos é o que o app se propõe a dizer, mas pude comprovar isso da forma mais prática possível: eu chamei a minha mãe.

Aqui, vale um adendo: a minha mãe é, possivelmente, a pessoa mais avessa à cultura digital que há por aí. O celular dela é um BlackBerry que sequer existe mais, com teclado físico. Estou falando de BOTÕES de verdade. A linha móvel dela, até pouco tempo atrás, era pré-paga e no padrão CDMA de tecnologia (o chip mais antigo possível para telefones móveis). Ela entende — e repete incessantemente — “Wi-Fi” como “ái fái”. Já tive que explicar para ela, em termos nada incertos, que “baixar” e “fazer o download” são a mesma coisa. Certa vez, o “ái fái” da casa teve engasgos e eu estava longe. Ela me ligou, recomendei que ela “reiniciasse o roteador”. Tente imaginar como foi esse diálogo.

Minha mãe é uma figura adoravelmente alheia a tudo isso e é extremamente feliz assim — e nos divertimos à beça com isso. Mas se tem algo que até ela tem que dar o braço a torcer é a conveniência. Mostrei para ela o kit recebido pela Positivo e a primeira coisa que ela reparou foi a embalagem em formato de casa.

Enquanto isso, eu já havia retirado as coisas da caixa e comecei a ler o manual para configurações. Uma leitura rápida e comecei as devidas configurações e, aqui, o processo é bem simples: de uma forma ou de outra, todos os dispositivos pedem que sejam colocados em uma espécie de “modo de espera” pelo qual o app os localiza após a conexão com o “ái fái” da casa (desculpa, mãe). O mais estranho foi a lâmpada, que, para entrar nesse modo, exige ser ligada e desligada do interruptor por três vezes. Simples a ponto de surpreender minha progenitora: “nossa, se soubesse que era assim, eu fazia”.

Tudo configurado, é hora de fazer ajustes finos. Novamente, nada que exigisse muita coisa: o controle universal foi o mais longo, haja vista que são vários dispositivos espalhados pela casa. Durante a programação, ele achou rapidamente os televisores — o que me impressionou, já que um deles, embora de uma marca mainstream, é um modelo bastante antigo.

Falo das minhas TVs, mas ele também se conecta, ao mesmo tempo, com Set Top Boxes, TV Boxes, ar-condicionado e outros dispositivos que funcionem à base de controle remoto infravermelho. Há também um modo “conecte-se por conta própria” que a Positivo refere-se como “DIY”, usado para fazer uma conexão manual entre o aparelho e o controle, para o caso de dispositivos cujas marcas são paralelas ou não são tão firmes no mercado.

Aqui foi onde minha mãe mostrou maior aprovação: por causa de uma situação recente, um dos aparelhos de TV estava sem o controle remoto, o que nos forçava a levantar e ir até os botões de toque (escuros e praticamente inelegíveis) da TV para mudarmos, por exemplo, a entrada HDMI da TV a cabo para a do PlayStation 4. O kit da Positivo brilhou bastante aqui.

Outro brilho notável foi a lâmpada: ela traz diversas configurações, tons de cor e graus de luminosidade, cenas ambientes e até mesmo timer de uso — tudo no intuito de facilitar o controle, dar a sensação mais completa de gestão do lar e ainda ajudar a fixar na mente a ideia de economia e controle automatizado. “Rafael, tira essa luz verde daqui, a casa parece uma danceteria, assim não d… nossa, mas já trocou? Nem subiu na cadeira?” — disse mamãe.

O plug de tomada é provavelmente o que tem o uso menos prático, mas igualmente intuitivo: depois de conectado, você apenas determina se ele está ligado ou desligado, além de determinar um timer para que ele faça o desligamento e acionamento automático. Tanto o encaixe dele na parede como o de outros aparelhos nele seguem o padrão de três pinos (popularmente chamado de “três cabeças”). Isso pode ser chato e exigir uma adaptação caso algum aparelho seu tenha sido importado, digamos, dos Estados Unidos, onde o padrão é o pino achatado (flat), mas isso é pouco provável.

Há também a conveniência de usar o sistema de smart home do Google para controlar tudo via Google Assistente: o kit da Positivo é um dos muitos reconhecidos pela empresa de Mountain View e a configuração de voz é simples e fácil (minha mãe ainda acha estranho me ouvir falar “Ok, Google: ligue a TV da sala”, mas tecnologia é assim mesmo, suponho).

Instalei o app no iPad da casa e deixei para que ela usasse. Foi tão fluído e normal para ela que não tive nenhum pedido de ajuda. Em uma questão de minutos, ela estava fuçando, desligando e ligando aparelhos como se já os tivesse há anos.

Pelo mesmo motivo que a maioria das coisas para o brasileiro: o preço. Enquanto configurava acessos para ela também poder usar (o app suporta vários usuários conectados, sendo um como administrador), estava paralelamente consultando o site da Positivo para aferir preços e outras ofertas. Minha mãe estava comigo e viu o preço de uma única lâmpada smart do kit, vendida separadamente: R$ 99. Já os plugues: R$ 129.

Eu poderia explicar para ela que essa não é a mesma lâmpada que se compra em uma dessas lojas de materiais para o lar. Mas foi aí que percebi: não surtiria um efeito muito grande de economia na energia com um kit contendo um item de cada. No mínimo, eu precisaria de mais três ou quatro lâmpadas e um número similar ou maior de plugues de tomada. Há kits combinados na loja oficial — duas lâmpadas e dois plugues — por R$ 499, o que seria um princípio de economia. Mesmo assim, caro.

Por que digo isso? Porque embora a usabilidade do sistema da Positivo (e de boa parte das outras empresas) seja simples, intuitiva e direta a ponto de uma pessoa analógica como a minha mãe usar tal qual ela fosse um hacker de primeira linha, o preço ainda afasta o usuário ao invés de convidá-lo. As pessoas mais leigas podem adorar controlar a luz, o ar-condicionado, a TV e as tomadas pelo celular, mas não por um preço proibitivo.

Há que citar, também, que, para a lâmpada funcionar, o interruptor cuja fiação corresponde a ela deve estar ligado. O tempo inteiro.

Uma opção seria, ao invés de lâmpadas inteligentes, adquirir interruptores inteligentes. Mas no site da Positivo não existe tal oferta e, se for para comprar de outra marca, é mais fácil adquirir tudo por ela: especialistas recomendam que você se atenha a uma fabricante por todo o projeto de smart home, a fim de facilitar a interatividade e evitar conflitos de comandos.

Ou ainda buscar em qualquer e-commerce global alguns interruptores de três posições: uma busca rápida na Amazon mostra vários modelos, em preços variados. Mas, novamente, já estamos colocando mais trabalho nas mãos de alguém que pode não querer se dar a isso. Eu não ligaria. Minha mãe, sim.

Resumidamente, o kit Positivo Casa Inteligente funciona maravilhosamente bem. E a variedade encontrada na loja online certamente seduz você a criar um projeto mais híbrido para a sua rotina (além do kit que testamos, há um voltado à vigilância, com câmeras conectadas via Wi-Fi). Mas não é possível dizer se ele terá uma serventia massificada hoje: os preços certamente são um impedimento. Quem sabe daqui a alguns anos, quando a tecnologia baratear o suficiente, minha mãe não se sinta mais à vontade para investir no controle da casa pelo smartphone.

Apesar que, antes de tudo, ela precisaria trocar de celular, certo?

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