Zuck não entendeu o problema

AP Photo/Andrew Harnik

Mark Zuckerberg, em depoimento ao Congresso americano: estrategista genial, mas não entendeu as sutilezas de uma democracia

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Não há notícia mais importante, esta semana, do que o vazamento de duas horas de áudio em que Mark Zuckerberg, em duas conversas distintas com funcionários do Facebook, fala abertamente a respeito de sua visão da companhia no momento. Sim: é mais importante do que o Supremo decidindo rever sentenças da Lava Jato ou o Senado aprovando em primeira rodada a PEC da reforma da Previdência. A empresa que Zuck comanda controla Facebook, Instagram e WhatsApp. Nenhuma estrutura tem mais impacto sobre o futuro político de nações do que este trio. E o que CEO demonstra, quando conversa com seus funcionários, é que ele não entendeu nada.

O furo é de Casey Newton, repórter do excelente site de tecnologia The Verge. Newton se especializou no encontro entre o Vale do Silício e a política e os áudios vazados representam uma oportunidade única. Zuck faz com frequências estes grandes encontros com funcionários. Jamais houve qualquer vazamento. E, lá, ele fala com liberdade. A desconfiança é de que quem lhe mandou as duas gravações tenha sido um estagiário. É que, das duas reuniões, uma era apenas para os jovens recém-formados que vivem sua primeira experiência profissional na companhia. Nunca ouvimos o brilhante CEO da maior rede social do planeta falando sem a rígida disciplina à qual se impõe quando em público.

“Dividir estas empresas, seja Facebook ou Google ou Amazon, não vai resolver os problemas”, afirmou o executivo. Falava da grande questão que ronda o Vale: a possibilidade de que está por vir um processo usando a Lei Antitruste que pode, ao final, partilhar uma das gigantes em companhias menores. “Isso não vai fazer com que interferência em eleições fique menos provável. Na verdade, vai facilitar a interferência, porque essas novas companhias não poderão trabalhar em conjunto.”

Em outro momento, Zuck tratou da questão das várias audiências parlamentares às quais tem sido convidado. “Não vou a cada uma destas audiências. Muita gente diferente está pedindo. Participei de audiências nos EUA e na União Europeia, mas não faz sentido que eu apareça em cada audiência de cada país que deseja me ouvir.”

Zuckerberg é um estrategista genial, basta ver como cuidou do crescimento de sua companhia. Tem uma compreensão ímpar do pulso dos hábitos digitais do mundo e sua intuição é rara até num ambiente onde há tanta inteligência ao redor como o Vale. Mas ele não entende as sutilezas de uma democracia.

Para que a liberal democracia funcione é necessária a existência de um espaço onde o diálogo ocorra. Por tradição, o chamamos de Praça Pública — é uma metáfora. O que Mark Zuckerberg construiu foi tão bem construído que, em essência, ele privatizou a praça pública. É em suas propriedades que um bom naco do mundo se informa. São algoritmos que seus funcionários escreveram que decidem que informação chega a um número maior ou menor de pessoas.

O que ocorre no Facebook é de interesse público. Jamais a Praça Pública foi privada e controlada por uma única pessoa. Em todas as democracias.

Seria por certo impossível para ele aparecer perante todos os Congressos do planeta. Mas é de uma arrogância sem tamanho sugerir que ‘não faça sentido para ele’, como se fosse mera questão de suas vontades. Conversando com seus funcionários, o que ele diz é que qualquer problema que o Facebook crie, só o Facebook, por seu tamanho e sapiência, tem condições de resolver.

A natureza da Praça Pública é de interesse público. Não pode ser um único executivo, por maior que seja sua boa vontade, integridade e inteligência, que toma as decisões sobre como circula a informação de interesse das sociedades.

Zuck não entendeu o problema.

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