Festival Piauí: os adversários do jornalismo estão por toda parte

A escolha do tema do Festival Piauí de Jornalismo – “quando a imprensa se torna o adversário” – aponta para os modos de ação dos governos autocráticos no enfraquecimento da atividade jornalística e de outros dispositivos de sustentação da democracia. A curadoria dos convidados reuniu jornalistas de países como Venezuela, Nicarágua, Hungria, Polônia, Turquia, Estados Unidos e Síria e possibilitou um panorama de diferentes contextos geopolíticos. Quem assistiu aos painéis de debate do evento, realizado na FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado), em São Paulo, nos dias 5 e 6 de outubro, teve acesso a informações sobre ameaças e também potencialidades do jornalismo como resistência à crise das democracias representativas.

Há uma incontornável questão de fundo no debate: a relação desses contextos com o Brasil de Bolsonaro. O exercício comparativo mostrou semelhanças e diferenças. A ascensão de uma extrema-direita populista no mundo tem ingredientes comuns. Piotr Pacewicz, psicólogo que se tornou jornalista investigativo na Polônia, chamou atenção para o alinhamento entre o lema de Bolsonaro – “O Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” – e o que ouve por lá. Outro ponto em comum é a necessidade de instituir um inimigo imaginário – os LGBTs no novo conservadorismo polonês, os comunistas no Brasil. A obsessão com a sexualidade anda ao lado da irracionalidade.

A jornalista Jane Meyer, chefe da sucursal de Washington da revista New Yorker, lançou luz sobre o irracionalismo, apontando suas causas econômicas. “Vivemos uma espécie de retorno a Idade Média contra o Iluminismo”. Meyer é autora do livro Dark Money, lançado em 2016, sobre a história dos irmãos Koch, bilionários americanos com grande importância na ascensão de Trump. Ela observou o alinhamento do discurso anticiência que elege a quebra do consenso sobre o aquecimento global para justificar a exploração dos recursos naturais. Os ataques à ciência, ao jornalismo, à razão iluminista estão interligados diante de um imperativo neoliberal.

O poder econômico é uma das explicações para a hegemonia de Viktor Orbán na Hungria, já há quase uma década no poder. A renda per capita é o dobro da brasileira e o discurso nacionalista classifica de traidores da pátria os jornalistas que tentam fazer seu trabalho com autonomia. Tamás Bodoky cobria ciência e tecnologia pós-queda do muro de Berlim até se deter na corrupção dos governos socialistas nos anos 1990. Com a ascensão da direita, Tamás sofre boicotes econômicos dos empresários ligados ao governo e pressões jurídicas, além das dificuldades para o acesso aos dados. Mas se vale de financiamentos coletivos e apoio de fundações internacionais para mostrar o enriquecimento dos amigos de Orbán.

Da América Latina, outros contextos e exemplos. Na Nicarágua, onde Daniel Ortega está no poder desde 2007, há censura a emissoras de rádio e televisão, além de boicote econômico aos jornais. O jornalista Carlos Fernando Chamorro, filho da ex-presidente da Nicarágua, Violeta Chamorro, e de Pedro Cardenal, jornalista assassinado nos anos 1970 durante a ditadura Somoza, foi obrigado a buscar o exílio desde o final do ano passado. A redação da revista Confidencial, dirigida por ele, foi invadida pela polícia da Nicarágua depois de uma matéria crítica ao governo de Ortega. Chamorro hoje vive na Costa Rica, país vizinho à Nicarágua, mas continua a cobrir seu país natal. Ele não está sozinho e calcula que 23 veículos digitais já surgiram no exílio.

Beatriz Adrián é correspondente da emissora de TV colombiana Caracol Television na Venezuela. Ela se emocionou mais de uma vez ao descrever a situação da população do país. Contou das dificuldades que enfrenta, como o acesso às fontes para a realização das entrevistas, e pediu apoio para a libertação do jornalista Jésus Medina, detido pelo governo venezuelano.

Da Rússia, o relato de um jornalista que também se viu envolvido com o aparato policial depois de cobrir a corrupção em vários setores do governo Putin. Ivan Golunov saiu da prisão depois de protestos dos outros jornais da Moscou e da viralização do slogan “Eu sou, nós somos, Ivan Golunov”. A pressão da sociedade pode mudar as coisas, concluiu.

Rania Abouzeid é uma jornalista nascida na Nova Zelândia e criada na Austrália que, desde 2011, cobre os conflitos na Síria e é autora do livro No turning back, sobre a guerra na região. A repórter turca Pelin Unker descreveu as mudanças em seu país desde a ascensão de Recep Tayyip Erdogan, um ex-jogador de futebol, ao poder. O país vive um crescente aparelhamento das instituições e a perseguição à imprensa, através dos dispositivos judiciais, tornou-se prática recorrente. Ela disse que há 130 jornalistas presos no país e cerca de 13 mil estão sendo processados.

No Foro de Teresina, o jornalista José Roberto de Toledo observou que há diferentes estágios de autoritarismo nos vários exemplos do festival. Uma pergunta me acompanha enquanto cruzo a pé a Avenida Paulista com suas tribos de domingo. Qual é o estágio brasileiro? Nas notícias de fim de noite, a informação de que Bolsonaro sugere boicote de anunciantes à Folha de S.Paulo após manchete de que ele teria feito caixa 2 nas eleições de 2018 ecoa algo que havia ouvido sobre as experiências das relações entre jornalismo e poder no mundo.

Especial Festival Piauí – Veja a cobertura no site da revista piauí com detalhes sobre todas as mesas.

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Pedro Varoni é jornalista.

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